Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Pós troika ou perestroika

Escrever e falar bem Português

Ideias

2013-05-30 às 06h00

José Manuel Cruz

Assisti à ascensão de Gorbachev e à introdução no léxico político dos conceitos de glasnost e perestroika. Mais de um quarto de século volvido, Cavaco Silva convoca o seu Conselho de Estado para discutir o pós troika. Mal, Sr. Presidente: reconvoque um Conselho de Estado para que se discuta a nossa perestroika. Já agora: a nossa glasnost.

Perante uma URSS inquinada e em pré ruptura, proclamava Gorbachev a necessidade imperiosa dum exercício político e de governo transparente - a glasnost - e a necessidade não menos imperiosa duma reconstrução da Sociedade, do Estado, da Economia - a perestroika. Olhemos por alguns segundos para nós e para o nosso presente: não vivemos nós numa situação de ruína iminente, não vivemos nós num Estado estagnado, trespassado pela mentira e pela dissimulação?

Pacheco Pereira, com mais bagagem e alcance do que eu, proclama que os governos - este e o anterior - fazem uso abundante e sistemático da mentira por três vias distintas. Dispenso-me de replicar a sua teoria sociológica da mentira política: basta-me sentir que será verdade o que ele diz. E todos nós sabemos que se mente duma forma descarada - para se chegar ao Poder, para se manter o Poder… Pasme-se: depois de se abandonar o Poder! Sócrates ainda insiste na lengalenga insolente de que caiu do cavalo porque as oposições se conjuraram contra si, coitado, que tão bem governava. Coelho e os demais bem que podiam continuar a fazer o número, que não era isso que abalaria Sócrates. O anterior primeiro-ministro caiu porque o quarteto usual de banqueiros lhe virou as costas, e porque Teixeira dos Santos viu que já não tinha mais onde esgravatar.

Na URSS de então ficcionavam-se os planos quinquenais, abordavam-se criativamente as metas de produção e os índices de bem-estar, mascaravam-se os privilégios da elite por definição inexistente. Sob todos os pontos de vista, o discurso oficial propagava uma marcha gloriosa, que cada vez menos o cidadão comum era capaz de vislumbrar. E a visão ruiu. Tinha de ruir! Vivia-se mal? Nem por isso! Não se vivia era de acordo com o discurso.

Descontadas as diferenças, entre nós passa-se algo de semelhante. Numa sociedade à beira do colapso, o discurso oficial focaliza as distorções nas regalias ditas excessivas do estado social e do trabalho. Por cá, o pecado reside sempre no cidadão, nunca no banqueiro ou no governante ao seu serviço; sempre no trabalhador, nunca na voracidade dum sindicato de empresas que controlam a seu bel-prazer as decisões ministeriais.

Para não tocar nuns, toca-se a dobrar noutros, nos mesmos de sempre. Mas, por não se tocar onde era devido, nunca chega a ser verdadeiramente suficiente o que se retira ao trabalhador e ao cidadão. Então tira-se mais, e mais. E mantem-se a mesma justificação. Até que a realidade já não cabe na fábula que construíram. Entalados, a meio caminho entre a alienação e o desespero, os cidadãos desfilam, cantam, finalmente riem-se na cara de ministros obtusos. O discurso oficial perdeu verosimilhança, e os ministros credibilidade. Pelos vistos, já nem o governo acredita em si próprio.

Entre invocações ao padroeiro de Portugal e ladainhas à Virgem de Fátima, Cavaco Silva convoca o Conselho de Estado para uma aproximação estratégica ao pós troika. Por este andar, melhor estivera se convocasse o Conselho de Estado para que se discutisse o que nos trouxe à troika, para que se desvendassem todos os não-ditos que nos afastam duma verdadeira reconstrução do Estado e do seu tecido social. E que essa discussão fosse pública, enaltecendo o sentido genuíno da democracia.

Não há governo democraticamente eleito que não diga que governa pelo povo e para o povo, povo que o próprio governo também constitui de per si. Mas, numa estranha perversão da reciprocidade, ao povo cumprem os redobrados sacrifícios, sem que se chegue a divulgar exaustivamente em nome de que erros são esses sacrifícios trazidos para a nossa vida diária, prática de que resulta a absolvição dos prevaricadores.

Não sei se o Sr. Presidente da República se apercebeu, mas esta crise não irá passar como as outras, com o lixo varrido para debaixo do tapete e uma euforia de aumentos em ano eleitoral. Correndo as alegorias disponíveis, isto só vai lá com penas e alcatrão, e, na sequência, com verdades transparentes e cristalinas. Nessa base, peça-se o prolongamento dos sacrifícios e assente-se a reconstrução do País. Mas com trabalho e dignidade.

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