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Nós e os outros… ainda mais!

Ideias

2011-09-29 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Há quem insista e persista na consideração de que o se está a passar neste momento na relação entre o Continente e a Madeira, é uma quebra de solidariedade para com o seu Povo.

Ocorre desde logo que não há tal coisa como o Povo da Madeira ou o Povo do Continente, mas tão só Portugueses. Também conviria recordar aos insistentes e persistentes que solidariedade não pode confundir-se nem com conivência cega, fruto de subserviências partidárias, nem com corporativismos enraizados em sentimentos de uma qualquer pertença regional.

Mas não há muito que se possa fazer com as mentes desvairadas na embriaguez das campanhas eleitorais. Sabe-se que as campanhas são arenas muito particulares da vida democrática, em que se admite o que no quotidiano civilizado seria intolerável, como por exemplo, o insulto. É o mundo do ‘vale tudo’, do ‘nós’ e dos ‘outros’. Ainda assim, em democracia o ‘vale tudo’ não chega a significar que valha mesmo tudo. Essa amplitude encontramo-la, por vezes com contornos de barbárie, em regimes não-democráticos onde se chega ao cúmulo dos assassinatos em plena campanha.

Da mesma forma, em democracia e em sociedades que nutrem uma relação saudável com a sua identidade colectiva, o ‘nós’ e os ‘outros’ também tem os seus limites. Há os de esquerda e os de direita, os verdes e os vermelhos, os laranjas e os rosas, os nem carne nem peixe, enfim, há sempre os bons e os maus na perspectiva de quem olha. Mas há sempre um limite e esse limite de absoluta decência é o do respeito pela própria integridade nacional.

Ora, o Primeiro-Ministro Passos Coelho e o Ministro da Administração Interna Miguel Macedo, mostraram recentemente a sua preocupação quanto ao potencial incendiário que actores políticos como as centrais sindicais, podem ter numa atmosfera social que se vai mantendo excepcionalmente calma. Mas afinal, se há potencial incendiário confirmado, ele está na estratégia eleitoral de Alberto João Jardim, ao lançar para terreiro um dos fogos mais rasteiros e ordinários de que pode haver memória: a ideia de que há Portugueses contra Portugueses. Nada mais mesquinho.

A verdade é que a Madeira é por estes dias a nossa pequena Grécia. Há anos que vinha exibindo uma espécie de arrogância suíça, deitando olhares sobranceiros sobre o Continente cuja economia supostamente estaria a sustentar com o seu turismo e zona franca. A retórica populista de Alberto João Jardim tem sido aliás nesta matéria altamente eficaz, pois são muitos os Madeirenses (em vários casos, gente que se pensaria de discernimento insuspeito) que reconhecem mérito a esta interpretação fandangueira da vida política, porque, dizem, apesar de tudo o homem tem feito obra.

Vai daí, a geografia da esperteza imita afinal uma realidade bem diferente da suíça: a realidade dos políticos ora mentirosos, ora ineptos e incompetentes - o que em matéria de gestão dos destinos colectivos é tão grave como a mentira, e as três, tão graves como a traição ao país e ao seu futuro.

A Madeira representa hoje um perigoso buraco de anti-matéria na nossa já miserável estrada de sacrifícios. É o fruto supremo de uma longa carreira carnavalesca de exercício do dever público tal como este não deveria em tempo algum ocorrer em Democracia. Mas é também o fruto supremo de quem permitiu, com os seus silêncios, o evoluir prazenteiro dessa mesma carreira. Não há inocentes.

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