Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Portugal regressou aos mercados

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2013-01-28 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O acontecimento que mais marcou esta semana foi o sucesso das emissões de dívida portuguesa, uma vez que resultou numa procura superior à oferta apresentada pelo nosso país.
Este acontecimento encheu de orgulho alguns agentes políticos que, de imediato, afirmaram que Portugal está no caminho do progresso e do crescimento. No entanto, convém recordar que este eventual sucesso, semelhante ao vivido nestes dias pela Espanha, Irlanda e Grécia, em nada resulta na qualidade de vida dos portugueses. De facto, ao longo das últimas duas dezenas de meses, o nosso país assistiu a um decréscimo dos níveis de qualidade de vida que não se verificava há várias décadas.

Diariamente, nos hospitais, temos notícias de famílias que pedem aos médicos para manterem os seus familiares internados mais tempo do que o previsto, para com isso poderem poupar com os gastos na alimentação e nos cuidados médicos desses familiares hospitalizados. No mesmo sentido, muitos idosos são abandonados nos hospitais, porque os seus familiares não têm possibilidade de os manterem em casa. Mas estas notícias pouco importam porque, afinal, Portugal regressou aos mercados!

Nas últimas duas dezenas de meses, as habitações entregues pelas famílias aos bancos aumentou de forma considerável. A perda da casa constitui um dos momentos mais dramáticos a que se pode assistir, uma vez que a ambição, o sonho de cada família, é ter uma habitação que os possa albergar. Centenas de imobiliárias fecharam as portas, lançando milhares de pessoas no desemprego; centenas de empreiteiros e de empresas ligadas à construção civil encerraram, lançando no desespero milhares de pessoas. Mas isto pouco importa porque, afinal, Portugal regressou aos mercados!

O sector automóvel vive uma das fases mais negras de sempre, com uma queda nas vendas a atingir quase os 50%. Como consequência, nas estradas circulam automóveis cada vez mais velhos, sem seguro, sem a manutenção periódica feita, colocando em causa a segurança de quem circula diariamente nas estradas. No mesmo ramo, centenas de stands encerraram as suas portas, lançando no desemprego milhares de trabalhadores. Diariamente são cerca de 750 os automobilistas que abastecem os seus veículos e fogem sem pagar. Mas isto pouco importa porque, afinal, esta semana, Portugal regressou aos mercados!

A ânsia das finanças em adquirir mais uns euros de impostos lançou os proprietários da restauração numa luta pela sobrevivência. Centenas de restaurantes encerraram, lançando no desemprego milhares de trabalhadores que, já de si, pouco ganhavam. Fecharam centenas de restaurantes, lançando milhares de trabalhadores no desemprego? Mas o que interessa isso? Afinal, Portugal regressou aos mercados!

Diariamente, assistimos a notícias de crianças que desmaiam nas escolas, porque chegam aos estabelecimentos de ensino sem a principal refeição do dia. Muitas crianças tomam uma refeição por dia, precisamente na escola, e muitas ainda veneram para que a escola lhes possa fornecer alguns alimentos para “matarem a fome” em casa. Muitos alunos passam fome nas nossas escolas? Mas o que interessa isso? Afinal, esta semana Portugal regressou aos mercados!

Nas universidades portuguesas, milhares de estudantes lutam pela sua sobrevivência no ensino, não tendo dinheiro para pagar as propinas, passando fome e vivendo na pior das misérias, para se tentarem formar e perspectivarem um futuro melhor. Mas isso pouco interessa porque, afinal, esta semana, Portugal regressou aos mercados!

Nas últimas duas dezenas de meses, emigraram cerca de 250 mil portugueses que, desesperados, decidiram procurar um futuro melhor noutros países. Quase todos altamente qualificados, com licenciaturas, mestrados e doutoramentos, vão agora contribuir para o crescimento de outros países que se dignam a acolhê-los. São emigrantes modernos e muito preparados, que abandonam com mágoa a nação que não lhes apresenta oportunidades de futuro. Mas isso pouco interessa porque, afinal, esta semana Portugal regressou aos mercados!

Este ano Portugal vai pagar aos seus financiadores, só em juros, mais do que gasta no sector da Educação durante todo este ano. Existem cortes na educação? Mas isso pouco interessa, porque Portugal regressou esta semana aos mercados!
Os portugueses actualmente vivem momentos de angústia e de medo: existem aqueles que lutam para sobreviver, devido à inexistência de rendimentos; existem aqueles que não têm emprego e que lutam para o ter; existem ainda os que têm emprego e lutam arduamente para não o perder.

Perdeu-se a qualidade de vida e ganhou-se a ansiedade; per-deu-se a estabilidade e ganhou-se a incerteza; perdeu-se a alegria e os sonhos, ganhou-se a tristeza e o medo. Mas, afinal, o que interessa isso? Portugal não regressou esta semana aos mercados?

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