Correio do Minho

Braga, terça-feira

Portugal e Espanha: Realidades e cooperação

Dar banho às virgens

Ideias

2016-06-04 às 06h00

António Ferraz

Os dois países ibéricos, Portugal (92 226 Km2) e Espanha (505 944Km2), dada a sua proximidade geográfica têm vindo a partilhar muito da sua história, cultura e economia. Diz-se que são dois povos irmãos, porém, na verdade ainda hoje existe um grande desconhecimento mútuo. Vamos agora levantar um pouco do véu sobre essas duas realidades em termos comparativos e do relacionamento futuro.

Recorreremos para isso a dados do Instituto Nacional de Estatística de Portugal e Espanha e fá-lo-emos no contexto da União Europeia (UE-28) de que são países membros. Focaremos, em particular, os aspectos demográficos e económicos. Quanto a demografia e em 2014 podemos verificar que a população portuguesa (10,427 milhões) era uma das mais envelhecidas da UE-28, com 19,9% dos seus residentes a terem mais de 64 anos, valor apenas superado pela Grécia (20,5%) e Itália (21,4%).

Em Espanha (46,512 milhões) esta situação era algo mais favorável com uma taxa de envelhecimento de apenas 18,1% (muito próxima da média da UE-28, 18,5%). Mais preocupante, contudo, para Portugal, se nada for feito entretanto, é o facto da previsão das variações da população residente na península ibérica apontarem para um quadro bem mais negro para o nosso país do que para o nosso vizinho: em 2080, Portugal terá uma população residente de apenas 7,1 milhões, enquanto Espanha verá aumentar a sua população residente para 47,6 milhões.
Quanto a economia, registamos que com a adesão ao Euro (desde 1999), a taxa de crescimento económico média foi francamente mais favorável para Espanha (3%) contra um valor anémico para Portugal (1%).

Podemos dizer que de forma estrutural (a longo prazo) o poder de compra ou nível de vida (em média) espanhol têm sido bem superior ao português, aliás, situação que se mantém no presente.
Assim, verificamos (em 2014): o rendimento real bruto disponível das famílias per capita, que mede de facto o poder de compra ou nível de vida (após correcção da inflação) era de apenas 16 830 euros em Portugal contra 18 340 euros em Espanha, ambos valores, contudo, abaixo da média da UE-28 (20 732 euros); o PIB por habitante em PPC (UE=100; em paridades de poder de compra, ou seja, ajustado pelo diferencial de inflação entre o país membro e à média da UE-28 assumiu os valores de 78 e 93 em Portugal e Espanha, respectivamente.

Ao invés, dos indicadores anteriores, a percentagem de população em risco de pobreza (dados de 2013) eram muito semelhantes em ambos os países ibéricos: 27,5% em Portugal e 27,3% em Espanha (UE-28= 24,5%).
Este indicador é, porém, mais favorável à Portugal se considerarmos apenas a população jovem (15-29 anos) onde o risco de pobreza quedava-se nos 31,1% contra 34,0% em Espanha (UE-28=29,0%).
Quanto ao funcionamento do mercado de trabalho a situação tem vindo a se apresentar melhor para Portugal, em concreto, em 2014, as taxas de desemprego eram de 14,1% em Portugal e 24,5% em Espanha (UE-28= 10,2%).

Quanto ao salário mínimo nacional (bruto) saímos a perder claramente, 756,7 euros em Espanha e 589,2 euros em Portugal. No comércio externo, em 2014, ambos os países ibéricos registaram saldos comerciais negativos (importação de bens superior as exportações de bens), embora o défice da balança comercial portuguesa de 10,7 mil milhões fosse melhor que o défice espanhol de 23,7 mil milhões de euros.
Porém, em ambos países ibéricos o comércio externo se apresente demasiado concentrado nos países comunitários, o que os torna muito dependentes da evolução desses países, nomeadamente dos mais fortes.

Portugal, por exemplo, destinou cerca de 70% das suas exportações de bens para a UE-28, dos quais cerca de metade para o seu vizinho ibérico!
Quanto às finanças públicas tem havido nos últimos anos tendência para a descida dos défices orçamentais em ambos os países, tanto um como o outro tendo sido sujeitos a medidas de maior ou menor austeridade.
Em 2014: o défice público era de 7,2% do PIB em Portugal, sendo de 5,9 % do PIB em Espanha; por sua vez, a dívida pública era mais onerosa em Portugal (130,2% do PIB) do que em Espanha (97,7% do PIB).

Em suma, Portugal tem vindo a apresentar ao longo dos anos indicadores macroeconómicos mais frágeis que a Espanha. O que deverá então fazer Portugal? Entre outras medidas:
(1) incentivar o turismo, não só, sol e praias, mas também, no turismo cultural, ambiental, termal, etc.;
(2) apostar numa maior diversificação de mercados (para além do quadro comunitário) para as exportações de bens;
(3) promover o aumento das exportações para Espanha, em particular, nos produtos energéticos (petróleo e seus derivados) e bens industriais (de alta tecnologia);
(4) promover e aprofundar a cooperação transfronteiriça, de que é exemplo, a Euro-Região Galiza-Norte de Portugal: trocas comerciais, investimentos recíprocos, parcerias na investigação científica, exemplar, o Centro Ibérico de Nanotecnologia em Braga, aproveitando para tal os fundos comunitários específicos destinados ao desenvolvimento de Euro-Regiões Europeias.

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