Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Porque somos tão pouco felizes?

Cancro do Pulmão – de que morrem os portugueses

Ideias

2018-03-16 às 06h00

Margarida Proença

Na quarta feira passada faleceu Stephen Hawking, o famosíssimo físico inglês, sobre quem seguramente muitos se lembrarão de ter visto o filme A Teoria de Tudo. Hawking tinha todas as razões para ter tido uma vida sem história, para se sentir infeliz e acomodado na sua dor. Muito jovem ainda, com apenas 21 anos, foi-lhe diagnosticada esclerose lateral amiotrófica. Esta doença terrível, cuja causa na maioria dos casos não é conhecida nem tem cura, acomete o sistema nervoso, e a pessoa vai progressivamente perdendo a capacidade de se mover, falar e mesmo comer. Finalmente, mesmo os associados à respiração são afetados. A esperança de vida é baixa, parece que em média pelos dois a cinco anos. Foi também a doença que vitimou Zeca Afonso, mas neste caso foi declarada muito mais tarde.

E apesar deste prognóstico devastador feito a um jovem que percebia bem as perspetivas que o futuro lhe reservava, Stephen Hawkins concluiu o seu doutoramento em física, em Cambridge, com 24 anos. Conta que quando tinha 12 anos, um dos seus amigos terá apostado com outro que ele não chegaria a parte nenhuma, ainda que na altura já fosse comparado por alguns a Einstein; na verdade, teve uma vida pessoal absolutamente vulgar. Casou-se, teve três filhos, manteve um casamento longo, que se transformou em amizade e presença, e voltou a casar. Viajou bastante até foi à Antártica, viveu aventuras radicais como ter participado num voo de gravidade zero já com cerca de 65 anos. E veio a Lisboa há cerca de 4 anos, fez a volta dos turistas, Belém, o castelo de São Jorge, etc.

Foi professor e investigador de uma das mais prestigiadas universidades do mundo, escreveu artigos científicos e até livros de divulgação científica, orientou teses de doutoramento e tornou-se o cientista mais conhecido de todo o mundo provavelmente desde Eisntein; a sua investigação foi em áreas muito complexas, como a origem do universo, a natureza da gravidade, ou os buracos negros, pontos do cosmo que são tão densos que nem a luz lhes escapa, e alcançou grandes descobertas. Há muito tempo que quase não se mexia, dizem que só um dedo e piscava os olhos, e estava ligado a um sintetizador de voz, quase parecia um robot a falar, mas era tão aberto que autorizou que a sua voz fosse utilizada numa canção dos Pink Floyd, lá pelos idos de 1994, participou em séries de televisão como os Simpsons ou a Star Trek. Dizem que este tipo de participações, ou os livros de divulgação científica eram uma consequência da sua necessidade de dinheiro, até porque a sua doença comportava custos muito elevados, e tinha uma família; perfeitamente racional. Por outro lado, dizem todos os relatos que vamos lendo, era uma pessoa com boa disposição, com humor, para além seguramente de uma enorme inteligência, que deve ter aumentado, imagino, com a sua determinação ao longo da progressão da doença. Uma pessoa que não se mexia, nem falava, mas que ao mesmo tempo era um comunicador por excelência.

Saiu esta semana o ultimo Relatório sobre a Felicidade Mundial; entre 155 países, Portugal aparece na posição 89. Pior que todos os países europeus, com a exceção da Bósnia-Hersegovina, que vem imediatamente a seguir, e a Bulgaria (105.º). Perto de nós, a Grécia em 87.ª. Já a Espanha (34.ª), a França (31.ª) a Itália (48.ª), a Bélgica (17.ª), a Inglaterra (19.ª) vêm muito à frente, para já não falar dos EUA (14.º). A Noruega, a Dinamarca, a Islândia, a Suíça e a Finlândia lideram o pelotão da frente, e lá para o fundo da lista depois de nós, mas perto, aparecem a Somália (93.º), a Nigéria (95.º), o Nepal (99.º), ou Moçambique (113.º). O índice de felicidade humana não tem apenas a ver com o nível de rendimentos do país; é uma medida subjetiva de bem-estar, calculado com base na avaliação individual de 1.000 pessoas, por ano, em mais de 150 países. Reflete não apenas o nível de rendimentos do país, mas também o grau de confiança nas instituições e nas normas sociais, a qualidade das instituições , o suporte da sociedade civil, o suporte emocional e a integração social, a generosidade da sociedade, a perceção de corrupção ou boa governação.

Todos nós conhecemos pessoas que diariamente nos confrontam com as suas histórias de relativa infelicidade, porque os dias que passam são difíceis, porque a doença existe, porque o que esperavam e desejavam não se concretiza, tantas outras razões, válidas com certeza. Viver não é fácil.
Mas histórias como a de Stephen Hawking - e outras mostram que a capacidade humana é muito superior o que imaginamos. Provavelmente os países também se diferenciam na posição com que se colocam face a potenciais adversidades. Confesso que a atual discussão sobre a necessidade de limpar e manter os terrenos limpos à volta das casas, depois da tragédia dos fogos no verão passado me surpreende. Faz-me lembrar uma pessoa com quem trabalhei em tempos; quando lhe dava alguma coisa para fazer, nunca concordava com a forma. Devia ser sempre de outra maneira, mas de cada vez que eu sugeria uma alternativa, ela discordava. E se lhe pedia sugestões, não era da competência dela essa responsabilidade, dizia-me.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

12 Dezembro 2018

Reciclar com civismo

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.