Correio do Minho

Braga,

Porque não sou campeão e no entanto sou português

Escrever e falar bem Português

Conta o Leitor

2016-07-18 às 06h00

Escritor

António Viana

A selecção portuguesa de futebol é a vencedora do campeonato europeu de futebol! Podia dizer que Portugal é campeão europeu ou indo mais longe, mas mais perto de mim, querendo receber também os louros da glória, dizer, somos campeões. Podia, mas não posso porque procuro ser honesto comigo e por consequência com os outros.

Porque não posso? Porque nada fiz para podermos ser campeões! Eles, jogadores, técnicos é que fizeram! Não vou ao futebol, por isso nada dou a ganhar aos clubes, não assisto aos jogos de futebol na televisão, por isso nada dou a ganhar aos clubes de futebol, não compro jornais desportivos e nada associado aos clubes, por isso nada dou a ganhar a quem vive de e para os clubes de futebol, não compro roupas de marca, seja ela desportiva ou não, por isso nada dou a ganhar aos clubes de futebol. Mas se nada dou a ganhar aos clubes de futebol o que é que isto tem a ver com a selecção? Muito, porque eles são quem fornecem jogadores à selecção portuguesa de futebol, são eles o alfobre da criação de bons jogadores para que possam servir bem a selecção portuguesa de futebol.

Mas afinal o que tudo isto tem a ver com eu não poder dizer que sou campeão? Podia dizer que sim e que era campeão, como habitualmente se faz no facilitismo que as colagens de quem se cola ou se afasta de grupos ou de pessoas na medida das vantagens que isso lhes possa trazer, mas não, não consigo.

Na minha vida, neste momento pouco é fácil; é fácil o ar que respiro, é fácil dar um passeio, é fácil poder rir com os amigos, ou mesmo não sorrir, mas estes, produto de realidades, vão escasseando, é fácil ir vivendo porque o coração bate e ainda não me falta o básico para comer e ainda fumo (alimentar este vício é outra morte vagarosa para além dele), não dos cigarros oficiais que alimentam parte do estado na dita defesa dos consumidores como eu, deseducado das boas práticas de saúde, mas daqueles que se aproximam das barbas de milho e não são onerados pelo olhar protector do estado (para já ainda vai dando para esses, só não sei até quando e quando o quando acontecer alguma coisa mais terei que mingar, talvez o acesso à internet, e depois não sei).

Dada esta explicação do pouco que é fácil, percebam agora que seria facilitismo eu dizer que sou campeão adquirindo de modo fácil um estatuto em que nada fiz por ele. Não fiz, um, porque não tenho meios económicos para o fazer, dois, por pensar que o futebol e tudo que anda avolta dele, nos tempos presentes, nada tem a ver com o cidadão e as suas necessidades, também elas muito presentes, excessivamente presentes.

Tempos houve que alguém se referiu às necessidades básicas para manter ordeira uma nação, e ela é composta unicamente por um povo, falou em panis e circenses, o que pôs em prática, por isso a dada altura complicada foi dado à população romana jogos e trigo para os distrair de realidades prementes e complicadas. Nos tempos de hoje ainda se mantem esta política, os jogos, agora outros, continuam a ser dados, mas com uma rede de interesses económicos a eles ligados que em nada lhes deu qualidade, só procura de resultados que não importa como os conseguir.

Quanto ao pão, ele vai escasseando, porque, quer queiramos ou não, o pão do tempo dos romanos não é nem pode ser o mesmo do tempo de agora, mas mesmo que seja, apesar das evoluções sociais, ele já escasseia aqui e ali, as notícias e certos organismos credíveis dizem-no.
Os jogadores e técnicos de futebol da selecção portuguesa foram campeões e eu não consigo dizer que sou campeão! Não consigo, porque eles foram de facto campeões.

Porque lutaram contra muitas vicissitudes, contra países adversos pela nossa condição de país pequeno sem expressão populacional, económica, e consequentemente futebolística, evidente, contra árbitros ao serviço de interesses menores, ao sonegarem três penalties evidentes, contra uma arbitragem suspeita na final, contra adeptos que tão depressa os glorificam como depressa os enterram na medida das vitórias ou derrotas, na medida das colagens ou descolagens em que somos peritos, na medida da capacidade dizermos ganhámos ou eles perderam consoante o resultado, contra uma realidade portuguesa em contraciclo.

Eles são campeões porque lutaram contra a adversidade e fizeram disso força. Verdade que tiveram um povo a gritar por eles, mas também verdade que teriam esse mesmo povo a gritar contra eles se tivessem perdido e que iriam escalpelizar cada um deles à procura de culpados, que nunca o povo que os apoia, porque estão sempre ali a gritar nas vitórias, começando pelos de maior protagonismo mediático, o treinador, o Cristiano Ronaldo, o Renato Sanches, o este e o aquele.

Eles são neste momento o que eu não sou. Eu sou português e não luto o suficiente contra as adversidades, eu não faço o suficiente para que a dignidade me seja reposta, eu não deponho governantes e agentes económicos corruptos que desbaratam a riqueza deste país, eu nada faço perante uma comunidade europeia que nos impõe regras e leis que em nada levam em conta a minha realidade, mas tão só a realidade dos muito do depauperamento das condições económicas da larga maioria dos portugueses e de Portugal.

Mais ricos que eu, eu nada faço contra um sistema judicial minado pelos interesses de alguns em detrimento dos interesses de todos, eu não voto e nem deixo de votar porque alterno entre aldrabões e mentirosos, eu deixo-me estar no sofá a dizer mal deste ou daquele ou a dizer bem de nós se este ou aquele ou as selecções ganham. Eu não tenho porto, sou salta-pocinhas da minha sorte e da minha condição de português aqui e agora.

Por isto tudo não sou campeão, eles é que são campeões e por mais que eu queira sublimar a minha realidade, colando-me a campeões, não consigo, porque sinto este país falhado e eu sou parte dele e não é este campeonato da Europa que me irá fazer esquecer a minha triste realidade; estou desempregado, não encontro meios de me empregar, olho à volta e como eu são muitos milhares que me dizem que eu não sou culpado de não procurar o suficiente o que não há em dignidade, sou só culpado de nada ter feito para permitir que este país também fosse campeão da justiça e bem estar social, contra tudo e contra a adversidade.

Eu só sei bater palmas ou apupar e nada mais e nada disto faz de mim um campeão, só se me colar a campeões e essa forma de estar ainda não a quero, mas já estive mais longe, porque por uma vez eu gostava de ser campeão, nem que fosse de mim mesmo!

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