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Por um Portugal pluralista, decente e tolerante

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Por um Portugal pluralista, decente e tolerante

Ideias

2021-01-17 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

1. As eleições presidenciais são daqui a uma semana, este ano em condições absolutamente inéditas e atípicas, no meio de uma pandemia que limita drasticamente os movimentos e as acções de campanha dos candidatos e a própria eleição. Uma pandemia que dura há mais de dez meses e que não se sabe quando terminará, a não ser quando mais de 60% dos portugueses estiverem imunizados pela vacina, o que ainda levará o seu tempo.
A campanha eleitoral coincide e coabita assim com o período mais perigoso e catastrófico da peste do século XXI, com números aterradores e cada vez mais graves ao nível das novas infecções, dos óbitos e dos internados em unidades hospitalares. Os hospitais estão à beira ou terão mesmo já ultrapassado a situação de rutura, criando situações verdadeiramente trágicas, com falta de meios e recursos materiais e sobretudo humanos.
Devido aos condicionalismos vigentes, praticamente desapareceu do nosso horizonte visual e auditivo o que era peculiar das campanhas, como as tradicionais arruadas, os comícios em grande escala e com enormes assistências, para impressionar os eleitores, as incursões pelas feiras, pelos mercados e pelos cafés, os almoços e jantares com centenas de pessoas.
Por estes dias, quem olha para as praças das nossas cidades dificilmente adivinha que vamos eleger a figura maior do Estado Português. O Supremo Magistrado da Nação, o homem que lidera e representa o Estado, comandando as suas forças armadas e interpretando o seu peso simbólico na sociedade e no Mundo.
Faltam o folclore típico destes momentos, a animação, as frases bombásticas, as bandeiras a drapejar, a vozearia pelas ruas, os altifalantes com ensurdecedoras palavras de ordem. Um ritual que é característico das campanhas eleitorais e que, neste caso, tem sido bem contido, estando confinado a outros meios e linguagens.
As campanhas estão a fazer-se, em grande medida, no espaço mediático, nas televisões e nas redes sociais, com entrevistas e debates entre os candidatos e profusos comentários de especialistas e politólogos, essa espécie que ninguém sabe muito bem o que é, mas que domina o debate político nos media, em especial televisivos.
O novo coronavírus vem desafiar a democracia a garantir a possível normalidade. Assim, à falta de um normal habitual, o “novo normal” ganha outras expressões e meios de actuação no espaço público.
Nas últimas semanas, ainda se ouviram vozes dispersas a manifestar-se a favor do adiamento das eleições, dadas as condicionantes decorrentes da pandemia, o que não veio a colher grandes apoios políticos, pelo que a ideia foi abandonada. Como referem alguns, “a pandemia não suspende a democracia”, embora naturalmente condicione o seu exercício.
Assim, ao contrário do que alguma vez aconteceu de forma massiva, foram criados mecanismos para permitir o voto antecipado de quem não possa por motivos de saúde ou não queira sair de casa no dia das eleições, o que será feito este domingo pelo país fora. Como também, de forma inédita e devido à situação pandémica, está previsto o voto dos eleitores residentes nos lares de idosos, no próprio local. Algo insolitamente, a Comissão Nacional de Eleições havia sugerido que os idosos fossem levados às assembleias de voto, como qualquer outro cidadão, dispensando-se a obrigatoriedade da quarentena, no regresso aos lares. Uma ideia completamente absurda, sem pés nem cabeça, para quem nem no Natal pode ir conviver com as famílias. Ainda bem que o bom senso prevaleceu.
Quanto aos candidatos, são de todos conhecidos, embora não tanto as suas ideias e propostas, pois têm sido mais o ruído, as provocações, as contendas e os insultos do que o debate sereno sobre o que é ou deve ser a figura do Presidente da República.
Marcelo Rebelo de Sousa é dado como vencedor antecipado e folgado, a lutar pela maior percentagem de votos possível. Não sendo da sua área política, entendo que fez um primeiro mandato de grande moderação e compromisso patriótico, de interesse nacional. Insofismavelmente, pela sua postura institucional, por um Portugal pluralista, aberto, decente e tolerante, merece continuar em Belém.
Ana Gomes e João Ferreira demonstram ser aguerridos, e marcam espaço político; Marisa Matias tem mais vocação para o convívio da rua e não tanto para o espaço virtual; Tiago Mayan Gonçalves e Vitorino Silva têm sido quixotescas figuras neste contexto.
Execrável, cada vez mais, é essa figura de racista, xenófobo, intolerante, que dá pelo nome de André Ventura. Um despudorado que faz gala em afirmar que “não quer ser Presidente de todos os portugueses” e que não presidirá “aos que vivem à custa do sistema, de subsídios, que vivem à custa de o corromper, ou que vivem à custa de esquemas para os que trabalham os estejam sempre a sustentar”. Separa os portugueses entre “pessoas de bem” e os “outros”. “A única ditadura que quero é aquela onde os portugueses de bem são reconhecidos”, afirma, sem vergonha na barba.
Um pensamento nazi que ostraciza ciganos, imigrantes, refugiados, alimenta uma cruzada contra o Rendimento Social de Inserção, defende a castração química e a prisão perpétua para homicídios e pedófilos e pretende restringir direitos aos trabalhadores portugueses. Tem feito da campanha um vergonhoso estendal de insultos.
Só para desacreditar essa sinistra figura, é preciso ir às urnas afirmar que Portugal não é o reino da intolerância, do radicalismo, do extremismo, do terrorismo ideológico, social e racial. Gente dessa deveria ter pudor de se afirmar portuguesa, porque Portugal fez-se historicamente do contacto com todos os povos do mundo, como emigrante, que outros povos foram aceitando!!! É preciso ser muito ignorante para desconhecer o essencial da nossa identidade!

2. Há dois dias, começou um alegado confinamento, decretado pelo governo, no âmbito do estado de emergência. Ou seja, o dever geral de recolhimento domiciliário. O que se verifica não passar de um simulacro, dado que ninguém confinou coisa nenhuma. É como tratar um cancro ministrando aspirinas… As estradas continuaram pejadas de automóveis, as ruas bem compostas de gente. Só o pequeno comércio local (lojas, restaurantes, cafés, cabeleireiros) encerrou, para dar mais lucro aos hipermercados.
Porque as excepções ao dever de confinamento são mais que as regras que mandam ficar em casa, isto não vai seguramente dar bom resultado. Porventura, daqui a duas semanas, passadas as eleições, tudo acabará por encerrar, como parece previsível.
Estamos a brincar aos confinamentos e a perder tempo precioso para reverter a mortandade que a pandemia está dramaticamente a provocar por este país além!!!

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