Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Por um caminho feito de nada

Como sonhar um negócio

Conta o Leitor

2012-08-14 às 06h00

Escritor

Por Isa Meireles

A maneira como nos traçamos depende única e exclusivamente de nós. Somos nós, os nossos próprios comandos. Há uma altura na vida em que deixamos de ser as marionetas, aquando da nossa preparação, entregam-nos os paus que nos guiaram e cortam-nos os fios. Estamos livres. Livres para sermos o que queremos, para fazermos o que quisermos.
A verdade é que nem sempre é fácil. Os primeiros passos são complicados, nunca caminhamos, outrora, pelas nossas próprias pernas, como poderíamos fazer isso agora? Sem qualquer tipo de preparação somos lançados à vida: A esta vida.
Começamos a caminhar e vamos tropeçando, vamos tropeçando e caímos. Rasgámos os joelhos, troçemos os pés e gastámos os calcanhares em maratonas que até à vista nos foram totalmente desconhecidas. Ansiamos a liberdade, mas quando a temos, por momentos, preferíamos que alguém cuidasse de nós. É nesse momento que olhamos para a natureza, vemos os pássaros cuidarem dos seus filhos e a largarem-nos. Julgámos cada acto desse tipo. Reivindicamos que ninguém deve ser abandonado nesta estrada, os pássaros sem saberem voar, nós sem sabermos andar. Era fácil se alguém cuidasse de nós, alguém nos dissesse o que ser, o que fazer, para onde ir. Mas isto, é só o que nós pensámos quando estranhamos as dificuldades do caminho.
Depois dos primeiros passos, ou melhor, das primeiras quedas, já vamos começando a rastejar, mesmo que os joelhos se rasguem, e com a sede do conhecimento conseguimos, portanto, numa dada altura, levantar as pernas caídas na estrada de terra. E vemos vários caminhos. Demasiadas opções. Um leque vasto de ofertas. Para qual ir? Se não vemos ninguém... Se ninguém nos indica o que fazer... Se nenhum parece diferente.
Mas a verdade, é que são. Há um caminho muito curvado, na esquerda, cheio de lombas e poeira. Há outro que é liso e sem pegadas. Há ainda um que é cheio de ramos verdes e flores que florescem à sua entrada. E por fim, há um que cheio de ninhos caídos. Para alguns, os caminhos mais apetecíveis são aqueles que são mais bem tratados à entrada, os que têm melhor aparência; Para outros, não. E são esses outros que se aventuram, sem saberem andar.
Os ninhos caem ao chão quando os pássaros se perderam, quando já não querem ser guiados pelo coração, quando já nada os remete para quem os trouxe, quando os valores e a ínfima preocupação, a clareza, a luta, a conquista, deixou de ser importante. Vão e não querem voltar.
As flores, que florescem à entrada, nesses, são mera ilusão óptica das estradas que não são fáceis, mas que aparentam ser. O que importa, aí, nesse caminho, é somente a aparência, o forçares as dificuldades dizendo que tudo é fácil, o viveres sempre numa máscara, seres a tua própria marioneta.
As pegadas apagam-se. São fruto dos que desistem de tentar, os que não escolhem. Os que pensam que não escolher é o caminho certo, e que só por isso, já têm na vida um dado adquirido: A certeza de que não perderam nem ganharam.
Mas por último, há aquele caminho: O das curvas, de lombas, de poeira. É o que te leva ao rio. O que te faz sangrar. O que te faz morrer e levitar. O que te faz querer ficar encostado à berma, mas perceberes que assim nada te ensinará a andar, a viver, a ser, a escolher. Caminhas por ele como quando caminhas por uma estrada cheia de vidros, e estás descalço. Mas corres. E ao correr, tropeças. E tudo parece estar contra ti. Todos os dias dormes ali, na berma daquele caminho, e cada dia, tens um novo obstáculo. E há quem diga que os obstáculos são bons, é certo, mas será que são sempre? Perdes a fé e dizes que não. Erras. E no momento em que achas que consegues ultrapassar qualquer coisa, o caminho acaba. Tens uma falésia e um rio. E ao veres o rio, desmoralizas. É grande, tem fortes correntes e remoinhos. Tem troncos caídos sobre as suas àguas, fortes e avassaladoras. Nada está a teu favor.
Não tens outra saída. Só o rio. E é aí que te lanças, num pequeno barco de papel. De papel, porque não és forte para mais. Tens a roupa rasgada, as pernas ainda não sabem andar, não sabes quem és ou se fizeste a escolha certa e tudo te leva a dizer que não. E o rio não é fácil. Vais contra as pedras e bates com a cabeça, sais do barco e vais sozinho, debaixo de àgua, quase sem respirar. Vens à superfície, num impasse aflito e quando pensas que tudo pára, que tudo acalma, vês uma cascata enorme e cais. Cais de tal maneira que os teus joelhos se rasgam naquelas pedras de musgo verde. Estás cheio de sangue e não te recordas.
Mas, quando acordas, estás num leito cheio de nenúfares. Nenúfares que te dão acesso a uma civilização. A tudo aquilo que quiseste desde a primeira vez que viste os caminhos. Mas agora, tu só pensas, em quanto seria bom, passar por tudo outra vez. Cresceste. E os obstáculos são isso: Impulsos. Arritmias.
E agora, que sabes andar, recordas o quanto te soube bem todo o processo pelo que passaste, todas as quedas que deste e percebes, que a vida pode ser feita de cicatrizes, mas muito mais do que isso, é feita de escolhas. E nem sempre as que nos parecem mais erradas, são no fim, as piores.
É no momento em que queremos voltar atrás que percebemos o quão tudo valeu a pena.

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