Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Por mais cultura do treino e treino baseado na ciência

O Natal e a Luz da Paz de Belém

Ensino

2018-11-21 às 06h00

Filipe Clemente

Odesenvolvimento da aptidão física no contexto dos desportos é um dos principais fatores que moldam e determinam o planeamento do treino. Sem uma aptidão condizente com as exigências naturais da dinâmica do jogo/modalidade, o risco de exposição à lesão ou incapacidade de manifestar a performance desportiva e obter sucesso aumentam. É, por isso, determinante adequar o treino às exigências da modalidade (no caso do desporto de elite) e, para além disso, permitir que as bases do treino fundamentem a “cultura” do treino em jovens.
Na verdade, o treino em jovens e crianças é o período mais sensível e determinante para construir o hábito de ser capaz de se desafiar e, sobretudo, entender que o sucesso final é condicionado pela capacidade de suportar uma dose adequada de esforço. O que se pretende dizer é que, por exemplo, treinar no futebol não pode ser apenas treinar futebol. As crianças e jovens carecem do desenvolvimento de capacidades motoras de base pelo que, não basta utilizar o jogo como meio para desenvolver integralmente o sujeito. Urge treinar habilidades motoras fundamentais em estágios iniciais ou implementar programas de força e condicionamento em estágios pré-pubertárias até estados maturos. Para isso, é necessário que os clubes se dotem de recursos humanos especializados e conhecedores dos períodos sensíveis de treino e que os implementem nos momentos adequados.
Desta forma, não é suficiente treinar tendo por base a modalidade, mas treinar tendo por base o sujeito e o seu estágio de desenvolvimento.
Para que o trabalho se adeque a cada indivíduo é necessário um processo implementado de monitorização que permita, por exemplo, estimar o pico maturacional e determinar os períodos de treinabilidade adequados. Para além da estimação do seu estado maturacional, importa acompanhar a evolução de cada indivíduo nas diferentes aptidões físicas e percecionar se a dose de treino está a surtir efeitos benéficos no mesmo. Ainda como processo de treino, é necessário perceber os efeitos agudos das cargas na resposta individual dos praticantes. Assim, não basta treinar por treinar. É importante treinar com rigor e perceber as variações intra- e inter-individuais, mesmo quando falamos de jovens.
É tarefa dos treinadores não especializar, apenas, os atletas. Na verdade, devem olhar para os estes com um ponto de vista mais holístico entendendo, à partida, que uma percentagem esmagadora dos atletas não alcançará a profissionalização, e ainda menos, a elite. Assim, e partindo dessa base, devem primeiro desenvolvê-los de forma integral para que alguns possam transitar para outras modalidades, outros possam continuar como amadores, outros possam desistir e continuar a praticar exercício físico e outros se tornem treinadores.
Assim, a cultura do treino deve ser mais do que treinar para a especialização da modalidade. Deve fundamentar a prática naquilo que é a base de qualquer desporto: o desenvolvimento das aptidões físicas dos praticantes e do gosto pelo exercício físico.
Por isso mesmo, e considerando que o treinador, por limitações humanas próprias, não pode dominar todas as áreas que concorrem para o desenvolvimento dos atletas, deve aceitar a introdução de especialistas como nutricionistas, psicólogos, osteopatas ou, e muito importante, treinadores de força e condicionamento ou cientistas do desporto que aprendem, durante a suas especialização no ensino superior, a moldar as aptidões físicas dos atletas, monitorizar o seu processo evolutivo e contribuir para uma maior manifestação das aptidões atléticas no contexto da sua especialidade. E não tenhamos medo que o treino da força possa deformar os jovens ou os futebolistas. Também não tenhamos medo que a corrida ou os sprints repetidos possa ameaçar o rendimento dos atletas.
Na verdade os medos esfumam-se quando vemos, por evidência científica que, por exemplo, o treino da força auxilia na economia de corrida de atletas de longas distâncias ou o treino intervalado, em alguns casos, contribui mais para a performance em desportos de longa distância, do que propriamente correr muito, durante muito tempo. Existe espaço para tudo, desde que o tudo seja baseado no conhecimento científico e não em crenças ou deduções erróneas.

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