Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Por isso a Europa é uma treta!...

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2017-03-26 às 06h00

Artur Coimbra

Na altura em que se estão a comemorar os 60 anos que em Roma se assinou o tratado que instituiu o que é hoje a União Europeia, salta à vista que a ideia de Europa, no que pressupõe de união, de solidariedade, de projecto comum, de respeito pelas pessoas e pelas identidades individuais e colectivas, não passa de uma imensa treta, dia a dia golpeada por altos responsáveis da burocracia que se instalou, petrificada, em Bruxelas.

Por isso, pela crise indisfarçável da ideia europeia, pela evidente carência de um credível projecto comum, pela hipocrisia que reina neste espaço, pela incompetência generalizada das suas lideranças, pela incapacidade para acertarem estratégias de defesa e segurança comuns, pelo caricato das suas produções legislativas, como é o episódio mais recente da anedótica intenção de apertar a proibição de fumar em todos os espaços públicos, é que cresce o muro da indiferença dos cidadãos, o afastamento entre a burocracia e as pessoas, a quem nada diz essa coisa da Europa.

Aliás, as sucessivas votações nas eleições para o Parlamento Europeu são bem evidentes da intransponível distância que separa as elites políticas europeias e os povos dos países que integram a União Europeia, que se estão marimbando para a hipocrisia, a nomenclatura sem rosto, os jogos de bastidores, a prepotência das nações mais fortes sobre as mais débeis economicamente.
Portugal foi um bom exemplo da perversidade dessa entidade pestilenta que chamam Europa e que não seduz nada nem ninguém.

Uma Europa que tritura os mais fracos, que esvazia sonhos e desertifica aspirações. Uma Europa que não é minimamente unida, construída por políticos de uma péssima formação, que não respeitam os povos da proclamada União, que são meros arrivistas na defesa dos seus interesses pessoais e políticos. Uma Europa forte para os mais fracos mas fraca face aos interesses externos de potências como a Rússia, a China ou os Estados Unidos.

O caso mais recente dessa Europa sem rumo, sem rei nem roque, uma Europa a duas ou três velocidades, uma Europa que se nega a si própria e aos seus louváveis fundamentos, foi protagonizado por um imbecil que preenche o cargo de presidente do Eurogrupo.
Um sujeito holandês, Jeroen Dijsselbloem, que há dias foi cilindrado nas eleições legislativas no seu país, mas que ocupa o honroso cargo de presidente do Eurogrupo, veio à praça pública insultar os povos europeus do sul, ao sustentar que não se pode “gastar o dinheiro em copos e mulheres e logo em seguida pedir ajuda”.

E concretizou, o abantesma, em entrevista ao jornal alemão “Frankfurter Allgemeine”, na passada segunda-feira: “Na crise do euro, os países do norte da Europa mostraram-se solidários com os países afectados pela crise. Como social-democrata, atribuo à solidariedade uma importância extraordinária. No entanto, quem pede ajuda também tem obrigações. Não se pode gastar o dinheiro em copos e mulheres e logo depois pedir ajuda”.

Mais tarde, o infeliz veio deitar água na fervura das suas declarações soezes, e afirmou que o que quis deixar explícito “é que a solidariedade deve vir com responsabilidade e um forte compromisso”.
Mas claramente não foi isso que o sujeito declarou ao jornal alemão e que suscitou, nos povos do sul e em especial entre nós, as devidas reacções.

Se fosse dito desta forma, todos teríamos percebido e concordado que à solidariedade correspondem responsabilidades, embora seja de questionar que tipo de solidariedade é a que leva a que os empréstimos da tróica aos países em dificuldades, como o concedido a Portugal em 2011, estejam associados a taxas de juro perfeitamente agiotas, mais próximas da pilhagem e da extorsão do que da pretensa “ajuda”.

Porém, o que o arrogante declarou foi mais que isso. Foi que há uma divisão entre a Europa do norte e a Europa do sul. A que pretensamente trabalha e é rica, de espírito calvinista e que produz estafermos como o ministro das Finanças alemão e o presidente do Eurogrupo e a do sul, que é mandriona, que não trabalha e que gasta o dinheiro em álcool e em mulheres, pedindo depois ajuda aos mais ricos. Fica-se sem saber onde é que gastam o dinheiro da Europa as mulheres e os que não gostam de copos…

É claro que as reacções não se fizeram esperar e promoveram um raro consenso político em Portugal. Até porque desvalorizam o imenso sofrimento que os povos do sul sofreram nos últimos anos em resultado das políticas sufragadas e legitimadas por aqueles irresponsáveis.
António Costa afirmou que os comentários do presidente do Eurogrupo são “absolutamente inaceitáveis” e exige o afastamento de Jeroen Dijsselbloem.
Para o primeiro-ministro, as declarações do dirigente holandês são “sexistas, xenófobas e racistas” e vão contra os valores de unidade na Europa.

Segundo António Costa, é inaceitável que uma pessoa que teve o comportamento que teve possa exercer funções na presidência de um organismo como o Eurogrupo, depois de criticar países que fizeram um “esforço extraordinário” para corrigir os desequilíbrios nas finanças públicas. “Portugal não tem lições nenhumas a receber do senhor Dijsselbloem”, afirmou Costa, frisando que Portugal cumpriu todos os compromissos com a União Europeia e alcançou em 2016 o défice mais baixo (2,1) nos anos de democracia.

Também o Presidente da República afinou pelo mesmo diapasão, o mesmo acontecendo com o BE, o PCP e o PSD. Saltaram para o espaço público, mimos como 'traste, lacaio, parvalhão'.
António Vitorino também entrou na dança e comentou que “se o assunto não fosse tão grave, perguntar-me-ia o que teria ele bebido antes”.
Há seis décadas o Tratado de Roma fundava a Europa, que começou com seis países e atingiu os 28 nos nossos dias. Nas primeiras décadas, a Europa foi liderada por uma geração de políticos de enorme dignidade, de uma honorabilidade, integridade e rectidão acima de qualquer suspeita, ao contrário do que se passa nos nossos dias, em que os interesses mais mesquinhos dominam, as vigarices campeiam, a incompetência reina e o divisionismo é o quotidiano.

Hoje a Europa é uma manta de retalhos de egoísmos exacerbados, de impotência para redimensionar um novo mundo, construído por emigrantes, refugiados, extremismos, terrorismo, ausência de fronteiras. Uma Europa de liberdade que autoriza que alguns países levantem muros, desatem censuras e reduzam ao silêncio vozes incómodas.
Uma Europa de assumida diversidade mas apenas nos aspectos negativos, no empobrecimento, no esmagamento de direitos.
Uma Europa cada vez mais distante como ideia, como projecto, como sonho, como utopia, amiga das pessoas. Uma Europa que, por isso, é uma treta!...

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