Correio do Minho

Braga, quarta-feira

- +

Por falar em vampiros

Uh Uh, os meus óculos de Sol- Novas regras balneares durante a pandemia

Por falar em vampiros

Ideias

2019-10-12 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

Uma famosa canção de uma grande referência no panorama musical popular português Zeca Afonso, “Os Vampiros”, tem como refrão mais ou menos isto: “eles comem tudo e não deixam nada”. Ora, infelizmente, depois de um período de esperança de mudança económica e social a nível mundial nos anos 1970, a verdade é que nas últimas décadas se tem vindo a expandir um capitalismo neoliberal e mesmo ultraliberal, fazendo com que aquela refrão emblemático do se mantenha actual.
Assim, tem-se vindo a assistir a ascensão do chamado populismo de extrema-direita, com todas as suas intenções nefasta, tais como, autoritarismo, xenofo- bia, racismo, homofobia e negação da crise climática e ambiental. Em muitos casos pode-se dizer que vivemos num tempo de claro retrocesso civilizacional, de que são exemplos paradigmáticos os governos de D. Trump nos Estados Unidos e de Jair Bolsonaro no Brasil.
Portugal, também tem os seus “vampiros”? A resposta é sim. Porquê?
(1) Apesar de felizmente a democracia parlamentar se manter, não é de descurar o perigo latente dos movimentos populistas de extrema-direita e dos “vampiros cá do burgo sempre a espera da primeira oportunidade para darem o seu golpe.
(2) Por outro lado, um recente documento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta para o facto de entre 2004 e 2017, o rendimento do trabalho ter baixado significativamente, passando de 65,8% do PIB para 54,5% do PIB. Ou seja, aos trabalhadores foram retirados 11,3% do seu rendimento a favor do capital (o rendimento do capital aumentou no mesmo período de 35% do PIB para 46% do PIB).
Assim, verifica-se uma evolução negativa na distribuição do rendimento, com o empobrecimento do trabalho face ao capital. Sendo esta uma tendência global, porém, o fenómeno é mais intenso em Portugal. Na realidade a nível mundial o rendimento do trabalho desceu entre 2004 e 2017 de “apenas” 53,7% do PIB para 51,4% do PIB (ou seja, - 2,3% do PIB). Já na União Europeia (UE) a redução do rendimento do trabalho foi de 59,4% do PIB para 57,6% do PIB (ou seja, - 1,8% do PIB.)
Refira-se, a propósito, que o economista francês Thomas Piketty na sua obra “ O Capital no Século XXI” de 2013 apontava este fenómeno como sendo inerente ao processo de reprodução capitalista. Com o objectivo de demonstração de tal tese de abaixamento relativo dos salários elaborou um estudo estatístico vasto confirmando que o modo de produção capitalista traz consigo inevitavelmente “concen- tração de riqueza e forte desigualdade social”.
Portugal, embora, como vimos, não tenha escapado a este fenómeno de pioria relativa do rendimento do trabalho face ao rendimento do capital, revela e positivamente uma ligeira diminuição da desigualdade a nível dos salários nacionais. Assim, os 20% de trabalhadores mais ricos passaram de 48,2% para 46,5% de todos os salários, enquanto os 20% de trabalhadores mais pobres passaram de 6,4% para 7,1%. Este facto é resultado de uma redução do rendimento no topo, ou uma subida do rendimento na base, ou ambas. Seja como for, certamente que um dos factores mais relevantes para explicar isso mesmo foram os aumentos do salário mínimo nos últimos anos no País. Observe-se, contudo, que Portugal continua a ser um dos países a nível mundial com mais elevado nível de desigualdade salarial: os 10% de trabalhadores mais ricos detinham 32,1% de todos os salários face aos 29,4% da média da UE.
Em suma, a nível mundial entre 2004 e 2017, o capital tem vindo a subtrair rendimento do trabalho. Em Portugal, o fenómeno é ainda mais intenso, tendo os seus trabalhadores perdido 11,3% do seu rendimento a favor do capital, sendo agora o peso do rendimento do trabalho e do capital no PIB de 65,8% e 46%, respectivamente!
Para contrariar os processos enviesados inerentes ao modo de produção capitalista, nomeadamente a elevada concentração de riqueza e forte desigualdade social, torna-se necessário que a governação adopte políticas públicas adequadas, visando:
(1) A criação de mais riqueza;
(2) Uma melhor distribuição do rendimento entre o trabalho e o capital e
(3) Uma redução do leque de rendimento entre os próprios trabalhadores.
Concluindo, e seguindo a linha de pensamento de J.M. Keynes, um dos economistas de referência mundial, é estratégico o virar da página neoliberal, que se retome o papel intervencionista e regulatório do Estado na sociedade. Se assim for, o espectro do populismo de extrema-direita e os “vampiros” poderão ser travados, e, em consequência, poder emergir a esperança de construção de um mundo melhor, mais desenvolvido, mais justo e mais amigo do ambiente.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho