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Ideias

2020-03-27 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Não consigo começar esta breve crónica sem agradecer – a todos os que se mantêm a trabalhar para minimizar o impacto deste vírus e para nos proteger das suas consequências. Já vamos, com 3.544 casos confirmados e 60 mortes, e entrou-se na fase de mitigação onde já existe transmissão comunitária.

Todos os profissionais de saúde que também adoecem, que também têm famílias que se preocupam em proteger, e que se mantêm na primeira linha desta guerra. Todos aqueles que, de variadas formas, mantêm o fornecimento dos bens essenciais que precisamos, que mantêm as ruas limpas e a segurança pública. E aos que nos trazem as notícias, com a exceção daqueles que continuam a aproveitar o espaço público que têm para desinformar e alimentar querelas gratuitas e mensagens geradoras de pânico. É de agradecer também a todo o governo que tem conseguido de facto manter a serenidade e desenhar políticas debaixo de uma enorme pressão.

Um destes dias passou na televisão o sucedido na Holanda, quando um membro do governo desmaiou de pura exaustão em direto. Esquecemos na maioria das vezes que são homens e mulheres sujeitos aos mesmos riscos que nós todos, aos mesmos medos e angústias, restringidos pelas escolhas orçamentais possíveis num quadro de urgência.
A nós, cabe-nos atuar por forma a minimizar a propagação do vírus. E, para os que podem, trabalhar em casa. Aliás, um dos efeitos interessantes desta gravíssima crise foi mostrar que é possível o teletrabalho, e que a produtividade neste contexto pode mesmo aumentar. Seguramente para algumas tipologias profissionais, pode traduzir-se numa reorganização do trabalho capaz de diminuir custos fixos às empresas, com vantagens também para as pessoas. Veremos. De qualquer forma, as competências nas novas tecnologias estão a aumentar para muitos.

A questão é que não estamos apenas a ser confrontados com o impacto do coronavírus em termos de saúde. A recessão económica está aí a bater-nos à porta, com um impacto global. Trata-se de um choque simultâneo, do lado da procura e do lado da oferta; na verdade, na minha opinião, o impacto parte do lado da procura, tanto de consumidores finais como cada um de nós individualmente, quanto das empresas. Estas confrontadas com a quebra abrupta da procura, de encomendas e dos fornecimentos intermédios, com dificuldades de tesouraria, despedem e deixam de criar emprego. Dada a escala e a natureza do choque económico induzido pelo coronavírus, bem como o facto de não haver memória de um choque análogo, é difícil prever o que se virá a passar. Mesmo o que sucedeu durante a gripe espanhola, que por 2018-19 matou cerca de 50 milhões de pessoas por todo o mundo, não serve de referência. O mundo não estava tão globalizado como o de hoje e tinha-se acabado de sair de uma guerra mundial, mas a economia mundial recuperou rapidamente.

Que respostas? Bem, no fundo, a extensão da recessão vai depender da duração deste período em que a economia como que desligou a luz. E não depende apenas da evolução em Portugal; os diferentes estádios da produção duma generalidade de bens e de serviços estão fragmentados e dispersos por variados países em todo o mundo. São as chamadas cadeias de valor global, e portanto a economia terá de ligar novamente a luz um pouco por todo o mundo. O Fundo Monetário Internacional considera que a recessão atual poderá ser mais grave do que a anterior, 2008-09, e poderá mesmo demorar vários anos a recuperar.

O Ministro Mário Centeno acabou de apresentar vários instrumentos de intervenção em termos de política económica. Algumas medidas têm um impacto orçamental imediato, e passam pelo reforço do pagamento de baixas aos trabalhadores e o reforço do sistema de saúde, enquanto outras remetem para a criação de linhas de crédito às empresas ou o adiamento das obrigações fiscais e contributivas, conforme o Público de 25 de março. A extensão destas medidas pode ser sempre discutida; haverá quem entenda que deviam ser mais alargadas e mais substanciais, e haverá quem entenda que se deve manter algum cuidado em termos orçamentais para evitar o que aconteceu anos atrás com a crise da dívida soberana. Será necessário que se evite um alastramento do desemprego, e que se vá monitorizando o impacto destes instrumentos de política económica.

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