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Popularidade

O maior desafio dos 50 anos de Democracia

Popularidade

Ideias

2024-01-03 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Porque a popularidade se meça, e porque a popularidade – nestes casos – seja um marcador de aceitação/repulsa de personalidades públicas, o JDD – journal du dimanche – encomenda a cada final de ano esta auscultação ao IFOP. Quem os franceses apreciam não nos faz mossa, bem entendido, mas há uma imagem e um ar do que possa ter impacto que procuro trazer a estas páginas, revelando ou antecipando algo a que a realidade acabe dando corpo.
Jordan Bardella, líder do RN – partido dito da extrema-direita – figura na lista actual de popularidade. Ocupa o lugar 30, mas é o único agente político destacado nos primeiros cinquenta lugares. Sublinhe-se que Macron, que surgira na relação de 2022, em 35º lugar, cai ao 65º, sendo batido pelo seu Min. da Educação, Gabriel Attal, que se notabilizou no início do ano lectivo por medidas, digamos, anti-islâmicas.
Bardella tem 28 anos, Attal 34. Bardella é filho de imigrantes, com infância e juventude vivida em Seine Saint-Denis, departamento em que todas as mairies são de esquerda. Igualmente com raízes estrangeiras, Attal nasce numa família com posses, é diplomado de um instituto superior – coisa que Bardella não é – e é assumidamente homossexual, não constando que seja vítima de reprovações, assédios ou calúnias, o que por si só me leva a questionar a premência de muita campanha contra as sexofobias.
De há dois-três meses que a França do comentário político se centra nestes dois agentes, identificando-os como porta-estandartes do futuro. Para o RN, Bardella encerra a vantagem de não portar o apelido Le Pen. Para ao centro-esquerda de meias-tintas que integra, Attal encarna a determinação, a decisão, tudo o que Macron não tem sido desde o início.
Recordo que Macron foi eleito das duas vezes contra Le Pen, para que Le Pen não ganhasse, segundo o lema «ou ele, ou o caos». Ora, que constataram os franceses? Que tiveram Macron, e que tiveram o caos – com os coletes amarelos, com as manifestações contra a idade da reforma, com os levantamentos contra estradas e reservatórios de água para irrigação, com os motins do início do Verão, com a montada do narco-crime, com os cuidados com a «rua árabe» francesa, com os crimes de racismo anti-branco e anti-cristão.
Bardella será claramente de direita, mas a esquerda de Attal não é óbvia de todo, ou ele não acalente a ideia de restabelecer o uniforme escolar, medida que soará sempre como sacrílega aos ouvidos de socialista ou social-democrata que se preze. Bardella é de direita, mas a direita em que ele e a Marine Le Pen pontuam é homo-receptiva, é tão católica como religioso-indiferente, é tão pró-família, como defensora do aborto. Em suma, o tabuleiro confunde-se, para que o que possa ressaltar em primeira linha seja a acção consequente. Ora disso deu Attal provas.
Bardella é cabeça de lista às europeias pelo RN. Bardella está consistentemente 10 pontos à frente da lista patrocinada pelo partido de Macron. Que desfecho nos reserva esta convocatória a urnas? Acarretará a dissolução da Assembleia Nacional francesa?
E Delors, o Senhor Europa! Nas retrospetivas pareceu-me ver o nosso Mário Soares, açapado numa cadeira de anfiteatro, distante das primeiras filas. Recordo um passar de olhos por entrevista de Delors, faz meses. Pensei reportá-lo nestas crónicas, depois passou. Conservo uma ideia – que a construção europeia sofria de um vício de princípio. A que ele não atalhou, que ele não viu ultrapassado nos vinte e tal anos após a sua saída. Isto é, parece haver razão sobeja para vituperar o que se quer crescido de forma cancerígena. Acabaremos morrendo de fartura.

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