Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Pontes e Rupturas

Prémio Nobel da Medicina

Ideias

2016-01-24 às 06h00

José Manuel Cruz

Porque não incentivar pais e autarquias a pugnar por palavra a dizer em decisões de arquitectura escolar, das prioridades formativas à aferição de resultados? Dito de outro modo: porque não reconstruir a Escola, respondendo a frustrações e urgências sentidas com veemência por famílias e interventores políticos de primeira linha, os que antes de todos são procurados ao pé da porta, para respostas a um mal-estar que não abranda?
Com desprendimento, não poderemos nós chamar pais e autarquias às trincheiras de uma frente de batalha, e sustentar que não farão nada demais, que sequer é tarefa que não possam levar a bom porto? Cidadãos e autarquias renitentes obstarão: mas que sabemos nós dos bê-á-bás da língua mãe, das matemáticas e demais disciplinas? Que sabemos nós de orgânica escolar e das complexidades das avaliações?
E que sabem, por si só, os meritórios profissionais envolvidos, e os iluminados ministros que sussurram reformas que nunca o são, numa Escola que perde eficiência, e que a jusante propõe formações desfasadas das necessidades, com tal delapidando recursos - os tais que escasseiam -, produzindo letrados com chaga aberta de inúteis? A quê - ou a quem - é que a Escola responde? Tal como se apresenta, parece responder a uma orgânica ministerial ou de serviços, e isso nada tem a ver com o aluno, a interesses corporativos e sindicais, ao negócio milionário das editoras, e nada disso tem a ver com o aluno, a modas empoladas e a um discurso pedagógico, e pouco terá isso a ver com o aluno.
Centrada no aluno, falha a Escola e o sistema em que assenta. O aluno é entidade transitória, doze a quinze anos de uma vida esperançosamente maior. Do aluno há de emergir o cidadão activo, e falha a Escola se do velho aluno resultar borboleta desasada, ornamentado seja o casulo que fica para trás. Presa estará a Escola à nostalgia de um tempo irrecuperável, época em que poderia funcionar segundo as regras do máximo denominador comum. Alfabetizado, com um alfobre de conhecimentos avulsos, porventura particulares e específicos, encontrava moço ou moça por onde se fazer à vida. Não há, hoje, António Mourão que convoque o tempo para trás.Longe de se negar que haja especialidades ou formações em que fornadas de finalistas encontrem empregadores ansiosos em recebe-los dentro de portas, o que se sublinha, ao invés, é que nos confrontamos com a urgência de dotar os jovens de competências que os tornem operadores reais e atractivos no espaço de vida imediato, partindo do princípio que nem todos vibram com os apelos de além fronteiras.
Reconheço que não distingo entre níveis de formação. Diferentes sejam os perfis, não há cuidados que dispensemos ao aluno da primária que imprestáveis sejam à criatura que se venha a tornar anos mais tarde. Quanto os dias de hoje não exigem em singularidade, em optimização individual, certo é que tal aprimoramento não dimana de nenhuma 5 de Outubro, como língua de fogo ao encontro de confiado apóstolo.
Em conclusão, não sejam os fundamentos do mérito particular trabalhados a nível local, cosiderados os interesses voláteis e informes do aluno, e o resultado mais do que inevitável é o esfrangalhar de vidas, a perda dolorosa de recursos humanos. E, que me conste, não há longínquo ministério em que se pondere a realização pessoal, a harmonia do indivíduo consigo mesmo e com as estruturas que o envolvem. E o que de lá não vem, é em cada um dos “cás” que tem de ser feito!

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