Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Politico sem qualidades

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Ideias

2015-05-17 às 06h00

Artur Coimbra

1) Há declarações que chocam, pelo menos quem ainda tem um pingo de consciência, pela desvergonha com que são proferidas. Como há limites para os desaforos de um primeiro-ministro, seja ele quem for. Neste caso, verdadeiramente, um “Politico sem Qualidades”, parafraseando um título retirado ao célebre romance de Musil…
No início da semana passada, e em ambiente de pura demagogia, ante um auditório de jotinhas do seu partido, Passos Coelho não se coibiu de afirmar que os fins que prossegue justificam os meios. Nem mais. A mesmíssima metodologia usada nas ditaduras, nos totalitarismos. Os portugueses foram meros joguetes nas mãos de um autocrata que apenas se preocupou em reduzir o défice, “custasse o que custasse”, sem o mínimo respeito pelas pessoas concretas, pelas famílias.
O homem teve a lata de afirmar que, perante a situação que encontrou em 2011, e depois de eleições que venceu com base na mentira e na aldrabice (isso não disse, porque toda a gente sabe…), tinha um remédio para “ministrar” aos portugueses, ou seja, uma agenda política, quer gostassem, quer não gostassem.
Num registo patético, referiu, não antevendo qualquer contestação: «O objectivo que temos é o de vencer a doença, não é o de perguntar se as pessoas durante esse processo têm febre ou têm dor, se gostam do sabor do xarope ou se o medicamento que tomam lhes faz um bocado mal ao estômago ou qualquer outra coisa. Quer dizer, se os efeitos secundários de todo o processo por que se passa valem ou não valem a cura».
O primeiro-ministro esteve-se marimbando, ao longo destes anos, ele o reafirmou, para os alegados “efeitos secundários”, segundo a sua pobre literatura, ou seja, para os problemas concretos dos portugueses, para os centenas de milhares que foram para o desemprego, para os centenas de milhares que foram obrigados a emigrar (chegou, entretanto, ao ridículo de criar uma brincadeira de crianças a tentar com que regresse quem ele forçou a abandonar o país…), para os milhares de portugueses que ficaram sem casa e sem carro, que passaram para a situação de insolvência, que foram obrigados a tirar os filhos dos infantários ou das universidades e os pais dos lares; para as centenas de milhares de funcionários públicos a quem cortou salários e férias, além de feriados que tinha obrigação de respeitar, se tivesse alguma cultura histórica. O mesmo se aplica aos reformados de diferentes sectores.
O homem de memória curta que se “esqueceu” de pagar os impostos que todos pagam, e que não se lembra hoje, porque não convém, o que era a Tecnoforma, quando toda a gente sabe a aldrabice que foi; o homem que não olha a meios para atingir os fins; o homem que obrigou os portugueses a pagar as vigarices do BPN e que se prepara para fazer o mesmo relativamente ao BES/Novo Banco; o homem que vendeu em saldo tudo o que havia para vender no país, e que quer à fina força alienar a TAP, nem que seja a custo zero, criminosamente, enfim, o homem que deixa o país sem anéis nem dedos e que se gabou desde o início de ir “muito além da troika”, é um político sem qualidades, sem carácter, naturalmente bem coligado com espécie idêntica e irrevogável de um partido menor.
Um homem cuja “doença incurável” é o primarismo, o arrivismo, a sede de poder, a arrogância. Um político vaidoso hoje já insuportável!...
Um homem que merece em Outubro ser recambiado definitivamente para Massamá, porque já ontem era tarde…

2) A partir de 13 de Maio, entrou em vigor outra monstruosidade, chamada “Acordo Ortográfico”, que vem dos tempos moribundos do primeiro-ministro Cavaco Silva (1990).
Mais nenhum país de expressão oficial portuguesa tem o acordo em vigor; há países que ainda nem sequer o aprovaram.
Mas, como sempre, impera a mania bem portuguesa de querer ir à frente… nem que seja para o abismo, ou a imbecilidade, como é o caso. O português é secularmente provinciano e empenha-se em fazer gala de aplicar um acordo de que mais ninguém quer saber…
Somos um país de idiotas, sem qualquer dúvida.
Como há muito se defende, e eu subscrevo, não há qualquer razão válida para este acordo que não uniformiza coisa nenhuma, pelo simples facto de que mantém a dupla grafia em diversas palavras, torna ouras ilegíveis, instaura a confusão onde deveria continuar a haver clareza.
O Acordo de 1990 que entrou em vigor 25 anos depois, representa tão só uma inqualificável capitulação do lado português perante o Brasil, alegadamente para facilitar as relações comerciais e económicas, o que nem sequer acontece por causa da língua, mas por outros factores, como a distância geográfica e a política proteccionista do lado de lá em relação aos produtos portugueses. Além de que, leu-se na comunicação social, deu-se o caso anedótico de Portugal exportar livros escritos segundo o alegado AO para o Brasil que foram mandados para a lixeira, porque não seriam legíveis para os brasileiros. Estamos a brincar ou quê? Ou a quê?
E a culpa não é dos brasileiros, obviamente, é dos políticos sem coluna vertebral, nem a mínima dignidade, que nos têm governado ao longo deste quarto de século, numa manifestação de parolismo que envergonha.
É evidente que, depois do Acordo e apesar do Acordo, Portugal e o Brasil continuam a não se entender em matéria de ortografia. Porque, sendo a língua a mesma, a grafia não o é, nem o significado das coisas.
O rato em Portugal, é mouse no Brasil; o adepto é torcedor, o guarda-redes é goleiro, o comboio é trem, o autocarro é ônibus, o fato terno, o golo gol, o ramo de flores é o buquê e o calção é short.
A casa de banho portuguesa é banheiro no Brasil, como o pequeno-almoço é o café da manhã, o telemóvel é o celular, e conduzir é dirigir.
E já nem falamos em palavras que em Portugal não se utilizam, como desgrudar, curtir, fofocar, gatona, chope, vipões, garçonete. E tantas outras…
Que acordo é que é possível num universo em absoluto desacordo?
Só se explica por uma estratégia de rendição por parte de políticos portugueses sem qualquer craveira, que querem à força obrigar todo um povo a usar a língua de um modo uniformizado, padronizado, obsessivo, irrespirável.
Chama-se a essa abjecção totalitarismo, absurdo, ainda que estejamos em democracia formal, desde há quatro décadas. São os cadáveres nos armários do cavaquismo!...
Obviamente, não me sinto obrigado, nem o farei, a escrever os meus textos, a minha liberdade livre, de acordo com aquilo de que discordo geneticamente.
Estarei em absoluto desacordo ortográfico com a idiotice dos nossos governantes e da Academia das Ciências, que deveria defender a Língua Portuguesa, a Pátria simbólica de todos nós!
Não o faz. Tem de ser cada um de nós a fazê-lo individualmente! É o que continuarei a fazer, neste e em outros areópagos!...

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