Correio do Minho

Braga, terça-feira

Política em Tempos de Cólera

Três apontamentos

Ideias

2016-05-16 às 06h00

Isabel Estrada

Tenho por regra não me servir dos espaços onde publico opinião para publicitar eventos, mas desta vez, tenho mesmo de abrir uma exceção. Vale a pena.
Hoje e amanhã, decorrem na Universidade do Minho, em Gualtar, na Escola de Economia e Gestão, aquelas que são as primeiras jornadas de Ciência Política da inteira responsabilidade do recém-criado Núcleo de Estudos de Ciência Politica (NECP), que reúne os alunos de licenciatura e de mestrado em Ciência Política. O bom leitor perdoar-me-á a imodéstia, mas o orgulho que sinto nestes alunos é enorme.

É que cada um, do alto esplendor da sua juventude, contradiz o que tantas vezes ouvimos dizer sobre os nossos jovens: que são apáticos, que não se interessam pela política, que perante a frustração descambam no silêncio agressivo ou se entregam à catarse fácil proporcionava pelos desabafos inconsequentes e recorrentemente mal fundamentados das redes sociais.

Não, essa não é uma imagem que faça justiça a todos os jovens, que faça justiça a estes estudantes que ao longo do dia de hoje em particular, se propõem debater porque é urgente perceber e estudar a política. “Política em tempos de cólera”, assim decidiram chamar a estas jornadas, inspirados no célebre livro “Amor em tempos de cólera” do Nobel da Literatura Gabriel Garcia Márquez.

Na raiz do título anima-os tanto o amor que sentem pela vida, como o desejo de melhor compreender o que aos seus olhos surge como um tempo de corrosão, um tempo perigoso para a Europa em que nasceram e sobre a qual lhes falávamos como sendo um extraordinário projeto de paz e de prosperidade de povos solidários, no qual valia apena acreditar e pelo qual valia a pena lutar.

Sobre as pessoas da minha geração, dizia-se que tínhamos nascido no pós-vinte e cinco de abril, e esse “pós-abril” conferia-nos uma áurea de juventude que quase parecia eterna. Hoje, já não somos tão jovens assim, e estes jovens de que agora falo nasceram em outros “pós”. Muitos dos meus alunos já não são sequer “pós-queda do Muro de Berlim”, ou pós-Tiananmen, como acontecia há alguns anos, a menos que tenham à volta de 27 anos e sejam alunos de mestrado ou de doutoramento.

Os mais novos são “pós-Expo 98”, ou seja, nasceram num tempo de esperança e de prosperidade sobre o qual mal tomaram conhecimento, tão tenra era ainda a sua infância, para logo entrarem numa nova era: a era dos medos xenófobos, dos discursos securitários, do crescendo da força ultra-nacionalista, que gradualmente se haveria de inaugurar com o 11 de Setembro; a era da recessão económica, do rebentar das bolhas especulativas da alta finança internacional, da crise das dívidas soberanas na Europa; a era do ressurgimento de um vocabulário que se julgava desmantelado, mas que agora traduzia a realidade da vida de muitas famílias, incluindo as famílias de muitos destes jovens: austeridade, desigualdade, emigração…

Estes são os jovens de hoje, os mesmos que se inquietam perante a desunião de vontades políticas na Europa face à crise humanitária dos refugiados, que se interrogam sobre a entrada nos parlamentos nacionais de partidos de extrema-direita e de extrema-esquerda, que procuram na análise da História as pistas tantas vezes ignoradas sobre como se processa a insidiosa ascensão das retóricas populistas; que buscam compreender o modo como o véu do fundamentalismo confessional ajuda a distorcer a real perceção sobre as lógicas mercantis e de poder que orientam a criminalidade global organizada.

Estes são os jovens a quem a Europa está a deixar uma pesadíssima herança (económica, política e social). No entanto, ao invés de cederem ao desespero, à frustração, às respostas simplistas que caracterizam a capacidade de fascínio dos populismos, estes jovens, alunos de Ciência Política, buscam na Ciência e na salutar confrontação de ideias, construir um novo agir. Parafraseando James Carville, de quem resultou a expressão recorrente “It’s the Economy, stupid” [é a economia, estúpido], estes jovens alunos demonstram hoje, na Universidade do Minho, que na verdade, “It´s the Politics, stupid”.

De facto, na ignorância atroz que as nossas sociedades alegremente cultivam sobre os fenómenos políticos, na assunção balofa de que qualquer um sabe analisar, discutir e explicar os fenómenos políticos, e de que estes quase sempre se resumem ora a explicações economicistas ora, pior, a confrontos civilizacionais, radica parte dos bloqueios de acção que tolhem e ameaçam a qualidade dos nossos regimes democráticos.

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