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Política económica e geoestratégica comum de defesa: uma inovação europeia?

Viagem a Viena

Política económica e geoestratégica comum de defesa: uma inovação europeia?

Ensino

2020-01-11 às 06h00

Pedro Madeira Froufe Pedro Madeira Froufe

O início do ano e da década começou com um susto. De resto, esse susto ainda não desapareceu totalmente. O assassinato no Iraque, pelas forças norte-americanas, do general Soleimani e a subsequente retaliação (aparentemente, sem grandes consequências) do Irão, fez suster a respiração do mundo. Logicamente, também da Europa.
O “raid” norte-americano acabou por liquidar o número dois da hierarquia (religiosa) do Irão, o comandante supremo dos “Guardas da revolução”, ou seja, o braço armado do poder religioso. Importa perceber uma certa dualidade (ou mesmo uma certa coabitação informal ou equilíbrio de poderes de diferentes naturezas) que marca a especificidade iraniana. Com efeito, há, no Irão, dois países, duas realidades sociológicas, suportadas por dois tipos de poder que delicadamente se equilibram entre si: o poder civil e o poder religioso, ou seja, o autoproclamado poder revolucionário religioso que, contudo, não se cinge aos assuntos espirituais. Este poder tem a pretensão de se implantar e governar, inspiradamente na “sharia”, as questões políticas e mundanas, tutelando, “latu sensu” o poder civil (político). Trata-se de uma referência fundamental para o “Irão profundo”, não urbano, religioso e, sobretudo, rural. Por outro lado, uma certa elite citadina e ilustrada - que não se revê nesse poder dos Ayatollah’s - pretende timidamente fazer do Irão um Estado aberto ao mundo ocidental, um Estado laico, com total separação entre o poder político-civil e a religião. Soleimani era peça fundamental, pelo que se sabe, do poder dos Ayatolha’s que, numa visão ocidental, em bom rigor, nem sempre será propriamente religioso (apenas ou principalmente).
Não nos interessa (até por falta de informação rigorosa e refletida) aprofundar a problemática do Irão e a sua posição quer no médio-oriente, quer no contexto da sua tortuosa e perigosa relação com os EUA e, por decorrência, com Israel (ou vice-versa); interessa-nos, sim, por agora, anotar alguns tópicos da posição da Europa (leia-se, da UE) neste conflito geopolítico global.

Assim, a UE acabou – e ainda bem! – por ser um ator (até agora) secundário neste conflito (espera-se que arrufo), proclamando a importância da contenção e da via diplomática na superação da crise. Ainda bem, dizíamos, porque essa é a única via que, em termos de direito Internacional e tendo em vista a estabilidade mundial poderá (e deverá) ser prosseguida. Creio que a posição europeia ficará registada, nem que seja em nota de rodapé positiva, da História. Porém, importa notar que a coloração secundária da posição europeia fica sempre, de certo modo, ligada também a uma certa irrelevância para o desenrolar dos acontecimentos. Repare-se que os EUA não avisaram nenhum dos seus aliados naturais e tradicionais – leia-se a União ou algum estado europeu. Muito menos tiveram sequer a pretensão de sugerir um envolvimento europeu nos acontecimentos, ao contrário do que tinha sucedido com o erro histórico de George W. Bush e a guerra/destruição do Iraque! Irrelevância é a forma como a administração norte-americana olha para a Europa (ou quer fazer crer ao mundo que é assim que a olha) e, por decorrência, para a integração europeia.

Ainda que, em termos económicos, essa irrelevância não possa ser, nem sequer ligeiramente ou por mero equívoco, sugerida! E Trump sabe-o bem. A irrelevância geopolítica que tenta impor à Europa, também faz parte da sua estratégia para esvaziar o peso de potência económica – comercial da União. Assim como os esforços para potenciar qualquer sinal de desintegração (até agora, sem sucesso…ao contrário do que pensava - e muitos pensariam ver acontecer - com o “Brexit”). Claro está que militarmente, a Europa é um anão. Mas não só de guerra ou da força de sugestão da guerra se faz o mundo e, sobretudo, a política direcionada para um desenvolvimento sustentável. E a política da guerra, desde logo conhecendo-se a História e a origem da integração europeia, não faz parte do seu ADN.
Bom…mas isso, de todo o modo, não impede que se pense e construa, doravante, uma verdadeira e inovadora “política económica e geoestratégica” comum de defesa europeia….e esse será inevitavelmente um dos próximos passos inovadores do aprofundamento da integração.

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