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Política clinicamente assistida

O que é a solidão?

Política clinicamente assistida

Ideias

2020-02-16 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

De que forma de eutanásia falece alguém que recorre aos serviços do hospital de Lamego? Perdão que peço à família por tocar semelhante assunto. Que espécie de pastilha de vou ali e já não volto lhe foi ministrada e com que recatos? Será de patente nacional, e para ombrear com a similar holandesa? Essa que em breve ficará à disposição do público em geral, dizem, dispensando prescrição médica. A pílula de Lamego suporta administração em ambulatório, digamos em recanto pacífico do Santuário dos Remédios, para um filho da terra que não pretenda dar maçadas, ou na orada da Senhora do Bom Despacho, aqui ao pé, nas cristas de Cervães? Em bocas que só muito à tangente se agitam com a qualidade da vida, com os padrões da assistência hospitalar, quão ridícula não soa a expressão de uma preocupação compungida com a suavidade da morte?
Argumentos que prescindo de repisar em texto tão breve, porque uma norma me basta: as opiniões, as convicções, os valores, são inegociáveis. Com efeito, ninguém abdica daquilo em que acredita e em torno do qual se funda. A modernidade aponta para a morte clinicamente assistida? Pois muito bem, e que assumam os subscritores e aprovadores a sua determinação. O que mal calha é a má-língua, a ignomínia rasgada de que a «Igreja» seja contrária por cálculo económico, visto gerir uma série de unidades de cuidados paliativos. E quão insensível não é ao sofrimento do doente e da família, se tudo se poderia abreviar! E ainda se dizem caritativos, misericordiosos.
Com que argumento de autoridade se impede uma pessoa de teorizar sobre a sacralidade da vida, até com articulado filosófico, que não religioso, enfeudado a uma Igreja? Lícito sendo teorizar, quem apoucar pode as conclusões? Que a «Igreja» quer um referendo, por assim ganhar tempo, que belamente utilizará a manipular os sentimentos, a criar um clima de terror psicológico, ou coisa que o valha. É de mim, ou já não estamos nesse filme? Quão eficaz se mantém a «Igreja» no território da mundividência? Quão reduzido não se encontra o seu peso?
Admita-se a convocação de um referendo: quem aposta que ganhe o não à morte clinicamente assistida? Não sabe a «Igreja» que o sim ganhará! Cada um de nós votará com a caneta do sofrimento que não quer, nem como doente terminal, nem como familiar de lágrimas esgotadas. Os advogados do sim também sabem que ganharão. De onde me fica a interrogação: porquê tanta crispação?
Admito que a «Igreja» preconize um debate, até para que os médicos desenvolvam as suas posições, e que nós os possamos entender: não dizem os bastonários que a morte clinicamente assistida é contrária à medicina? A que penalidades ou alcunhas ficará sujeito um médico que conhecidamente se envolva em tais práticas? Ou um enfermeiro?
Exuberamos em leis ocas, em palavreado benzido de progressismo, cuidando puxar Portugal para a ribalta. O que nos falta em desenvolvimento, sobra-nos em retórica governativa e parlamentar, o que nos minga em riqueza e arroubo cultural, cresce-nos em diabolização do outro, dito espírito tacanho, força de bloqueio. Com tamanho brilhantismo avulso é um mistério como continuamos a marcar passo.
Com o muito que estamos às escuras, talvez agradecêssemos saber, primeiro, que boas práticas presidem ao desligar dos suportes de vida e à sedação aplicada para apaziguar de vez um ausente, uma família. A menos que sejam decisões clínicas difíceis de debater às claras.
Fica a sensação que damos um passo em frente e ao lado, sem cuidarmos o chão que pisamos. É o costume.

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