Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Podemos!

O que nos distingue

Ideias

2015-02-02 às 06h00

Carlos Pires

1. No passado sábado, as ruas da capital espanhola, Madrid, encheram-se de pessoas. Foi o dia da “Marcha da Mudança”, a maior ação de apoio ao partido “Podemos”, a nova força política de esquerda surgida nas eleições europeias de Maio de 2014 e que, desde Novembro, é colocado pelas sondagens como o partido que pode vencer as legislativas.
Espanha poderá replicar o recente resultado do evento eleitoral grego, do qual saiu vitorioso o Syriza, liderado pelo engenheiro Alexis Tsipras, cujos programas prometem abalar as políticas dominantes ditadas por Bruxelas e por Berlim. Terminando assim com o dominador rotativismo dos vários “PS” e “PSD’ que pululam por essa Europa fora.
“O vento de mudança começa a soprar na Europa”, entoava Pablo Iglesias, o líder do Podemos, à multidão. A par, ergueram-se bandeiras republicanas, algumas gregas, também do partido Syriza, bem como cartazes em que se podia ler: “Políticos, o povo despertou” ou“ Está a acabar o vosso tempo PPSOE”, numa alusão aos dois partidos que têm governado a Espanha: o PP (Partido Popular), atualmente no poder, e o PSOE (Partido Socialista).


2. Façamos um histórico da vida europeia dos últimos 6-7 anos: a crise, que iniciou como bancária, com a descoberta de ativos tóxicos e pela derrocada do Lehman Brothers, obrigou a União Europeia a injetar dinheiro nas economias mais frágeis, tendo optado ainda pela imposição de duras políticas de austeridade, utilizando uma linguagem punitiva para caracterizar os países em apuros - os PIIGS (Portugal, Irlanda, Italia, Grécia e Espanha).
Claro que esses países não estavam nada bem, fruto de décadas de políticas de despesismo gratuito e rapina. Mas também parece claro que o Tratado Orçamental, imposto por Angela Merkel e assinado pelos vários “PS” e “PSD”, um pouco por todo o lado, a que acresceu a intervenção da Troika, não veio trazer melhoras. Muito pelo contrário. Não havia “alternativa”, disseram esses partidos-amigos-da-alemanha, mesmo ante o verdadeiro caos social, de miséria e fome, de que a Grécia se tornou o caso mais dramático.


3. O poder instalado em toda a Europa, cego da sua razão (ou receoso que se comprove a falta dela!), tende a descrever o que se está a passar de uma forma simplista: são partidos radicais e demagogos que estão a ganhar as eleições, com um programa que pretende manter os nacionais na boa vida, enquanto os outros países da Europa pagam as contas.
Elucidativo disso mesmo é o discurso do nosso primeiro-ministro, Passos Coelho: “Não é possível que um país não queira pagar as suas dívidas, querer aumentar os salários, baixar os impostos e ainda ter a obrigação de nos seus parceiros garantir o financiamento sem contrapartidas. (,,,). Ora, isto é um conto de crianças. Isto não existe”.
Passos Coelho parece não ter percebido o que se está a passar na Europa. Se o braço de ferro da Alemanha e dos seus seguidores se mantiver, insistindo na tónica do programa de ajustamento e das reformas - que não se conseguem fazer em países onde a recessão e o desemprego são tão brutais! - e não for encontrada uma forma de negociar as dívidas públicas, o risco não é só o das possíveis consequências da saída da Grécia do euro ou da União Europeia. O risco é sim o do fim da própria União Europeia.


4. É este o momento. Será esta porventura a última oportunidade para que a Europa acorde e repense o caminho a seguir, certa porém que as políticas adotadas nos últimos anos de nada serviram senão para agravarem o empobrecimento. Impõe-se, no mínimo, um outro olhar sobre as economias, certos de que não há mais margem para a humilhação das pessoas e que apenas com o valor da solidariedade - alicerce da criação da União Europeia - poderemos todos construir o futuro. E que se perceba que as pessoas estão desesperadas, sentem-se no “fundo do poço” e acham que nada têm a perder. O que poderá perigar as democracias.
Não sei o que resultará de todos estes movimentos que reclamam mudança. Não me admiraria que todos acabassem a fazer vénias a Angela Merkel, como não há muito tempo aconteceu na França de François Hollande. Ou talvez não. O que eu sei é que a maioria das pessoas revela um cansaço extremo e, desacreditadas quanto ao contributo dos partidos tradicionais para a retoma económica, dizem: basta! Eivadas ainda de alguma esperança: a de que podemos fazer a viragem. Podemos. É esse o significado que temos de retirar das eleições gregas ou da “Marcha da Mudança”, em Madrid.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

19 Dezembro 2018

Parabéns ao IPCA

18 Dezembro 2018

O seu a seu dono!

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.