Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Planos e impactos

A vida não é um cliché

Ideias

2012-04-06 às 06h00

Margarida Proença

Com frequência, e muito bem aliás, se encontram agora cursos dirigidos a empresários ou a potenciais futuros empresários. Nesses cursos ensinam-se uma série de competências nas áreas do marketing, dos recursos humanos, do planeamento estratégico etc., mas como seria de esperar a “peça de resistência” é a preparação de um plano de negócios. De qualquer forma, se alguém não tiver feito nenhuma dessas ações formativas - que volto a insistir são de recomendar - pode ainda consultar na internet diversos sites onde se ensinam a fazer.

O objetivo é claro: quem se quer meter num negócio, antes disso, deve ter ideias bem claras, deve ser capaz de as escrever de forma simples e objetiva, traduzindo em indicadores mensuráveis quanto tem de investir e quando e quanto espera obter de resultados. Uma das razões para que tantos negócios corram mal radica exatamente em não se ter feito um plano de negócios bem feito, ou sequer se tenha feito um.

Mas ainda aí estamos no âmbito dos riscos individualmente corridos por cada um, com os seus próprios recursos e as suas escolhas. A avaliação do impacto de decisões tomadas de forma insuficientemente cuidada é feita diretamente por via do mercado. Agora no que respeita a atividades, ações, investimentos que envolvam dinheiros públicos, a falta de cuidado na elaboração dos respetivos planos e a ausência de mecanismos transparentes de acompanhamento levantam problemas que podem ser muito complicados.

A avaliação dos resultados económicos e financeiros tem se ser certificada por entidades autónomas e independentes, desde auditores ao Tribunal de Contas; no entanto, de forma surpreendente, continuam a encontrar-se, aqui e ali, manifestações claras de confusão entre uma avaliação dos resultados ou do impacto das ações e decisões que de qualquer forma envolvem dinheiro dos contribuintes, que tem de ser externa e absolutamente independente, e o auto elogio encomendado sob diversas formas. Nestes últimos casos está muitas vezes inscrita a receita para o insucesso; mas o mercado só muito tardiamente, e de forma incompleta, “lê” os problemas que vão sendo gerados no setor público, como estamos todos a aprender bem à nossa custa com esta crise.

Um exemplo? Há por aí inúmeros postos de abastecimento de carros elétricos; havia até um subsídio de 5 mil euros para quem comprasse um. Diz a revista Sábado desta semana que o país tem mais de 1100 postos, e que em todo este processo esteve envolvida a soma de 8 milhões de euros. E afirma-se ainda na mesma revista que são 231 os carros no total. Que eu me tenha apercebido, ainda não vi nenhum ainda a utilizar qualquer posto; estou seguramente enganada, claro, mas também é fácil porque a média é de quase 5 postos por carro. E o caro leitor?

Não significa isto que as coisas se não devam fazer e que a inovação não deva ser acolhida. Bem pelo contrário. O que implica é a definição de avaliação dos resultados e do impacto das políticas enquanto instrumento que permita aferir a eficácia e a eficiência dos programas, tanto mais importante quanto é certa a restrição de recursos com que somos defrontados. Uma avaliação correta procede ao levantamento e á análise de dados tal como seria necessário numa empresa, identifica os impactos e afere a sua eficácia, relevância e sustentabilidade a médio e mesmo no longo prazo.

Apenas como exemplo, imagine-se que se construíam enormes estádios numa região relativamente despovoada, ou onde o futebol não seja de nível elevado tendo em conta um mega acontecimento desportivo qualquer. Ou outro qualquer elefante branco, é indiferente. Podem, e devem, discutir-se a relevância das decisões de investimento e a sua sustentabilidade quando a festa acabar para evitar que, depois, tenha-mos de ser todos a pagar as contas.

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