Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Pesadelo

Privilégios docentes

Conta o Leitor

2019-07-09 às 06h00

Escritor Escritor

José Handel de Oliveira

Tinha o bonito nome de Micaela, mas queria que lhe chamassem Nicha, o que todos faziam. Era bela, alta, de formas divinais, olhos verdes e de cabelo louro que usava a dar-lhe pelos ombros e sempre impecavelmente penteado. Divorciada, sem filhos, rondava já os quarenta anos, mas o seu aspecto era extremamente jovem. Professora numa Escola Secundária do Porto, onde era colega da minha mulher - a Aninhas e a quem fazia muitas confidências, enquanto a mim me tratava com uma frieza, quase de desprezo. Pelas suas confidências soube da sua grande atracção pela riqueza e das grandes viagens e cruzeiros que fazia por quase todo o mundo. Aos muitos que assediavam, depois de beneficiar de caríssimas refeições e espectáculos, deixava-os especados à porta do quarto do hotel ou do camarote do navio, alegando uma súbita indisposição. A sua ganância fazia com que tratasse mal a mãe, uma distinta senhora, muito conversadora e que tanto por ela fizera, porque nem sempre abria os cordões à bolsa como ela exigia, chegando a ameaçar de que a interditava. Perante os meus comentários, a Aninhas perguntou-me se eu não gostava da amiga. Disse-lhe que não era uma questão de gosto, mas a atitude dela lembrava-me as palavras do grande dramaturgo inglês William Shakespeare, quando afirmou que pior do que a mordedura de uma cobra, era a ingratidão de um filho.
Mas, a verdade era outra. Eu sentia uma atracção doentia por aquela mulher que não sendo mais bonita, nem mais elegante que a minha Aninhas, me atraia com o seu modo de encarar a vida e, vejam bem, pela forma como me tratava. Pela primeira vez desejei ser rico, pois pensava que só com muito dinheiro lhe quebraria a prosápia. E a pensar nisso, ao jogar, como habitualmente, no euromilhões, apostei forte, cheio de esperanças. Ao regressar a casa, envolto como estava nos meus maus pensamentos, aleguei estar muito cansado e fui logo para a cama, onde não tardei a adormecer.
De manhã passei pelo café e tive a notícia que fora premiado com um terceiro prémio que deduzidos os impostos, chegava quase aos 54.000 euros. Guardei segredo e logo que aquela importância foi depositada na minha conta, tirei o número do telemóvel da Nicha, do da minha mulher e telefonei-lhe e não a deixei desligar, dizendo-lhe que tinha uma proposta a fazer-lhe que lhe poderia valer muitos milhares de euros. Embora relutante, aceitou encontrar-se comigo no fim das aulas. Chegado ao local do encontro e correndo o risco de apanhar um par de bofetadas, enchi-me de coragem e disse-lhe: Nicha, dou-lhe cinquenta mil euros se quiser passar umas horas comigo. Ela cerrou os olhos, ficou vermelha e com uma voz rouca, perguntou-me: Está a brincar comigo? Juro que não! Então está bem. Trate de tudo e depois telefone-me.
Acertada a data e a hora do encontro numa suite de um dos melhores hotéis da Cidade Invicta e avisada a Aninhas que naquele dia ia chegar tarde, por ter um serão no trabalho, dirigi-me ao recepcionista daquele hotel, a quem gratifiquei principescamente – não há nada como ter dinheiro – e avisei-o de quando chegasse uma senhora a perguntar pelo Sr. Martins, que lhe dissesse para subir para a suite presidencial. À cautela e temendo que ela me aparecesse com a minha mulher, sentei-me num sofá da recepção, encoberto por um jornal que fingia ler. Mas não. À hora combinada, ela apresentou-se só e majestosa, usando um belíssimo e vaporoso vestido preto que lhe ficava muito bem. Acabámos por nos meter ao mesmo tempo no elevador e senti logo o seu suave perfume. Não disse uma palavra e logo que entrou no aposente, abriu o computador que transportava e pediu-me para fazer a transferência da verba combinada para a conta que me deu a identificação Realizada a operação que ela confirmou, recusou o delicado snack que a gerência pusera à nossa disposição, tendo aceitado, no entanto, uma taça de champanhe. Depois, sem uma palavra, despiu-se, o mesmo tendo feito eu, embora mais vagarosamente porque não tirava os olhos daquele corpo escultural. Abraçou-me e dirigimo-nos para o leito. Ciciou-me ao ouvido: Só com protecção. Mas eu estava preparado para isso, pelo que não tardei em ser levado ao Céu, enquanto ela, de olhos semi-cerrados, murmurava palavras doces e até me deu uma segunda oportunidade, coisa de que eu já nem me lembrava da última vez que isso acontecera. Gritei de prazer e deixei-me cair, exausto, ao seu lado. Fechei os olhos e adormeci, enquanto ela, delicadamente me afagava o corpo todo...
De repente, senti-me abanado com brusquidão e ao abrir os olhos vi a Aninhas, com cara de poucos amigos e perguntar-me: Oh meu menino, o que é que te aconteceu que passaste a noite toda agitado e ao acordar disseste: Nicha, deixa-me dormir? Consciente de que tudo não passara de um sonho, respondi-lhe: Minha querida, se eu sonhei com a cabra da Nicha, não foi um sonho, foi um pesadelo!

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