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Persona non grata

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Persona non grata

Ideias

2020-01-10 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Fechando os olhos, sou capaz de rever as implosões dos Budas de Bamiyam, perpetradas pelos talibã, e as depredações orquestradas pelos guardiões da pureza do novo califado em território sírio e iraquiano. Nestas páginas não cabe o que eu faria a bestas de tal jaez. Como também não cabe a minha modesta opinião sobre o indivíduo que os norte-americanos têm no cargo de presidente. Diz, o aberrativo, que visaria jóias patrimoniais como retaliação a actos de vingança desencadeados pelos iranianos. Juro que é caso para que peçamos que repita sff, porque o absurdo é de tal ordem que uma pessoa não quer crer naquilo que ouviu.
Serei só eu que atingi o ponto de não retorno? Há um vomito que se forma em mim, uma incapacidade de contemporizar, de relativizar, de dizer que a américa não é o trump, de precisar que o homúnculo é um aleijão, um erro de casting, concluindo por um “coitados deles, que têm que o aturar a tempo inteiro”. Não tenho um pingo de solidariedade para alocar aos pobres dos americanos. Daria o dito pelo não dito, naturalmente, se de hoje para amanhã uma nação inteira se levantasse contra um rufião de beco. Bem dizia, o corrécio acenourado, que poderia enfiar um balázio ao calhas, ao primeiro distraído, na quinta avenida, que ninguém o importunaria.
Pensando bem: não nos cansa a ordem social vigente, o primado americano e a subserviência europeia? Ser-se marcadamente pró-europeu será um crime? Um pecado? Passamos a vida a dizer que devemos a democracia de novo tipo à intervenção salvífica dos norte-americanos na primeira grande guerra, depois na de 41-45. E se não for bem assim? E se vivermos um pesadelo interminável, sem querermos dar-nos acordo? E se padecermos, todos nós, europeus, de intratável síndrome de Estocolmo?
Durante decénios vivemos aterrorizados pelo demónio bolchevique, pelo tirano eslavo, pelo gulag, pela cortina-de-ferro, e tudo o que lhes viesse em contrário era por definição justo e bom, e é nestas e por estas que nos devemos perguntar se acaso vivemos mais tranquilos, hoje, enquanto herdeiros de um muro que já não o é, por alturas de Berlim, enquanto liquidatários de uma ditadura do proletariado, falecida em dívidas, sem descendentes conhecidos.
Entretemo-nos, nós, e uma parcela de americanos tristes, com a ideia peregrina de uma destituição por infame figura, por um quid pro quo à moda deles com um regime ucraniano de saldo. Tudo tem o seu tempo, e há coisas que por uma razão ou outra teimam a não sair do sítio. Entretanto, não cuido que dessemos um passo maior do que a perna se declarássemos o energúmeno persona non grata, epíteto passível de revisão, assim o senhor caísse em si. Cristãmente falando, temos direito a segunda chance, uma e outra vez, as vezes que forem precisas.
Os americanos acham que têm contas a ajustar com os iranianos, embora outros possam considerar que os iranianos são quem tem mais agravos em carteira. A História é um livro aberto, que cada um folheia como quer. Neste diferendo, perfilamos na trincheira americana, aqui e ali com ligeiras aberturas ao Irão, com os franceses e os alemães à cabeça, porque os negócios são o sal da terra. Mas estaria na hora, se calhar, de introduzirmos uns ligeiros ajustes na rota europeia. Talvez o possamos exigir aos nossos governantes. A mim, por exemplo, caiu-me mal a resenha do senhor ministro Santos Silva. O Irão tem tido uma influência regional negativa, disse o nosso homem de estado. E quão negativa não é a influência global do amigo americano? E assim chega um homem a lacaio do capital.

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