Correio do Minho

Braga,

Perder a confiança

Amigos não são amiguinhos

Ideias

2017-01-31 às 06h00

Jorge Cruz

O presidente da Câmara Municipal de Braga admitiu há dias a possibilidade de o município alienar a antiga fábrica Confiança uma vez que, segundo afirmou, o projecto de recuperação do edifício não foi enquadrado no financiamento para a regeneração urbana. Ricardo Rio sublinhou, a propósito, que nessas circunstâncias “qualquer intervenção teria que ser a expensas do município”, avisando contudo que esta obra não se inscreve nas suas prioridades.
Sobre o controverso assunto, e numa tentativa de justificar a venda do prédio, o líder da coligação de direita que governa a Câmara disse ainda que “não faz sentido ter um imóvel se ele tiver uma oportunidade de rentabilização”, antes de confirmar já ter recebido propostas de compradores.

Longe vai o tempo em que Rio considerava a Confiança como um “marco de referência no contexto industrial bracarense”. O tempo em que defendia a necessidade da sua ligação com a Universidade do Minho, até como forma de quebrar barreiras de mobilidade. Recorde-se que nessa altura dizia que “se temos uma área (…) colada à UM, que está degradada e não tem qualquer aproveitamento, e onde podemos instalar um conjunto de valências que vão atrair os jovens da universidade e outras situações, já estamos a diminuir a proximidade”. E acrescentava ainda que “se juntarmos essa solução a uma de mobilidade que ultrapasse a barreira que passa em frente ao Braga Parque, estamos a cumprir um desígnio.” Isto é o que afirmava o líder da oposição.

Palavras leva-as o vento é um provérbio popular muito antigo e que, neste como em outros casos protagonizados pelo actual poder municipal, me parece legítimo evocar. E a asserção é tanto mais lícita quanto seria expectável outra postura de Ricardo Rio, uma postura de maior coerência, de cumprimento escrupuloso das suas promessas eleitorais. Acreditava-se que uma vez no poder o jovem autarca colocasse em prática as linhas que enformaram o seu discurso enquanto líder da oposição. É público e notório que não é isso que tem acontecido.

De facto, nesta como em outras áreas da intervenção municipal, torna-se difícil identificar na actuação do presidente da Câmara muitas das propostas que o então líder da oposição apresentou enquanto candidato. No caso em apreço, lembro que o programa eleitoral prometia a “criação do Museu da Cidade (a integrar na Fábrica Confiança), bem como espaços museológicos específicos nos domínios etnográfico, teatral e da arte sacra”. Garantia também o “desenvolvimento de um programa para a recuperação do património edificado para a instalação de valências culturais e sociais de usufruto público”, assegurando-se que “nesta esfera, dar-se-á finalmente sequência ao projecto para a Fábrica Confiança”.

Não foram precisos muitos anos para Ricardo Rio deixar cair estas promessas e colocar em causa, como faz agora, o interesse público que esteve subjacente à expropriação/aquisição do imóvel pelo anterior executivo camarário. Não obstante se ter tratado de um processo em que ele próprio esteve activamente envolvido, conjuntamente com o então vice-presidente Vítor Sousa.
Na altura, tratava-se de promover a preservação do património e da memória industrial de Braga e de alavancar o esforço de regeneração urbana e dinamização económica da zona em que o edifício se encontra implantado. Para tal, seriam disponibilizadas valências para serem fruídas pela população, como serviços públicos ou equipamentos culturais. Agora, porém, e segundo as palavras do edil, o imóvel passará a ter uma utilização “predominantemente comercial”.

Quer isto significar que as 84 propostas surgidas do concurso de ideias promovido para a Confiança, algumas das quais definidas como 'inovadoras e de excelência', pelo próprio Ricardo Rio, não terão qualquer aproveitamento prático.
Claro que o autarca tem toda a legitimidade para traçar as prioridades da sua gestão mas ao fazê-lo não deve nem pode esquecer-se que as suas opções políticas devem respeitar escrupulosamente os compromissos assumidos com o eleitorado. O que, neste caso em particular, não está a acontecer.

Estamos, pois, perante mais um triste e flagrante exemplo de desrespeito pelos eleitores, mais uma clara violação do contrato celebrado com os munícipes de Braga, enfim, perante uma atitude que demonstra o desprezo a que os eleitores são votados por alguns políticos. Por outro lado, constata-se também que a alternância democrática por si só, sem políticas alternativas, não resolve os problemas.

Do ponto de vista da gestão camarária, a política do executivo da coligação de direita pouco se diferencia dos anteriores, que combateu ferozmente. Em determinados aspectos, aliás, afigura-se mesmo como um clone mal conseguido, defeituoso mesmo, na medida em que pratica as mesmas políticas mas com piores resultados práticos.
Claro que este tipo de comportamento contribui para o afastamento dos cidadãos da política, concorre para o crescimento da onda de descontentamento, para o aumento das vozes críticas e, o que é mais grave, esta conduta alimenta os populismos com o consequente enfraquecimento da qualidade da democracia.

Mas voltando ao tema central desta crónica, deverá dizer-se sem rodeios que a cidade estará agora em risco de perder duplamente a confiança: refiro-me, por um lado, ao velho edifício fabril da unidade com esse nome e, por outro, à confiança política que os eleitores ainda depositavam no presidente da Câmara. Com as prioridades que adoptou - e que também se reflectem negativamente em outros casos polémicos, de que os supermercados são mais um triste exemplo - Ricardo Rio hipoteca o capital político que angariou com um discurso de oposição que veio a comprovar-se não ter qualquer correspondência com a sua acção e, pior ainda, descredibiliza o exercício da actividade política.

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