Correio do Minho

Braga,

- +

Penso logo opino

Lance de charme

Penso logo opino

Ideias

2019-08-12 às 06h00

José Agostinho Pereira José Agostinho Pereira

Julgava eu que os autos de fé faziam parte do passado. Pelos vistos enganei-me! Não só continuam a existir, como têm uma abrangência maior do que nunca, sendo curioso notar que as heresias que em tempos deram direito ao vilipêndio e às pedradas continuam a ser as opiniões manifestadas publicamente por alguém contrárias a um grupo. Afinal, como muito bem se ensina na Filosofia, confirma-se que não evoluímos assim tanto desde a Grécia antiga, se é que evoluímos mesmo. A nuance em relação ao tempo medievo é que, agora, a execução da sentença não se faz no pelourinho da praça pública, mas no espaço digital, o que aumenta de forma exponencial o número de participantes ávidos pelo linchamento.

Uma opinião é uma opinião, não é necessariamente uma ofensa. O primeiro significado do dicionário da Porto Editora refere “um modo de ver pessoal e subjetivo”. Imagino que estejamos todos de acordo que em pleno século XXI e numa atmosfera supostamente democrática uma opinião é para ser respeitada e passível de concordância, de discordância, de alheamento, de contra-argumentário, mas nunca, acho eu, de impulso direto e imediato para o insulto, para a censura, para o ataque pessoal e mesquinho contra quem simplesmente a emite.
Diz-me um amigo professor, que muito estimo, que o problema está muitas vezes na eventualidade dessa opinião colidir com a tensão generalizada que possa existir dentro de um grupo, com os seus elementos a sentirem-se individualmente ofendidos, não tanto por culpa do seu conteúdo mas mais causa dessa tensão acumulada por um conjunto de situações desgastantes.

Em todo o caso, quarenta e cinco anos após a queda do antigo regime, que, como se sabe, tinha uma máquina de censura que limitava a liberdade de expressão, é inquietante ver uma opinião ser dada como ilegítima ou como estando a mais no espaço público. Confesso a minha surpresa por ver isto acontecer, como me surpreende o desejo, mais do que isso, a quase que exigência pública de grupos de pessoas pela unanimidade à volta de temas que lhes tocam diretamente. Culpa minha pensar assim, claro.

Tinha um professor na Faculdade de Filosofia de Braga, o padre jesuíta Pereira Borges, que me aconselhava a escrever nos jornais. De vez em quando, lembro-me dele e escrevo. Prezado Pereira Borges, esteja onde estiver, note como o seu conselho não é lá muito motivador e entusiasmante para os dias que correm. O mundo ofende-se com demasiada facilidade e daí até ao auto de fé vai um pequeno passo. Sinal dos tempos!

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

14 Dezembro 2019

Neutralidade Carbónica 2050

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.