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Pelo caminho da Maternidade (III parte)

Proteção de Dados pós confinamento

Escreve quem sabe

2011-01-23 às 06h00

Manuela Pontes Manuela Pontes

Depois de uma perda gestacional, é fácil aconselhar uma nova gravidez, mas difícil é perceber que aquele bebé que se perdeu não poderá ser substituído por nenhum outro; fácil é pensar-se que engravidando rapidamente se apaga o passado; difícil é reconhecer que desistir não é opção e que cada bebé ocupa o seu espaço e transforma cada vida no seu melhor ou no pior que pode atingir. Fácil é ultrapassar, difícil é saber como!
“O meu bebé nasceu dia 28-11-2007, às 2:54 da manhã já sem vida. Dia 1-12-2007 foi o funeral do nosso Daniel. Há 1 mês e 24 dias, que tento perceber porque não tenho o meu filho comigo. Ninguém me conseguiu ainda responder...” Cristina
A Perda Gestacional veste-se de silêncio, mas ela exige precisamente o contrário: um grito. Quebrar o pacto de silêncio que lateja no seu interior. À pergunta: Escolha um adjectivo que caracterize o que uma mulher, que acaba de perder uma bebé durante a gravidez, sente. Qual escolheria? … pare a sua leitura aqui e reflicta sobre esta questão. O que sente?
Tristeza? Solidão? Vazio? Culpa? Vergonha? Foram palavras que lhe ocorreram? Se foram estes vocábulos que lhe associou está assertivamente correcto. Tristeza pela impotência de não gerar; Solidão pela dura forma de não se encontrar uma razão para o “porquê comigo?”; Vazio quando se olha para dentro e não se encontra nada, nem a essência, nem o Ser; Culpa por não se poder controlar a situação e a Vergonha (porque todos julgam) são sentimentos que pulsam e ocupam tudo.
“A lembrança daqueles momentos são, sem dúvida, dolorosos, até porque não tive quem me OUVISSE e, por vezes, basta isso, seja qual for a circunstância; sem duvida que nós mulheres e só mesmo nós é que sabemos o quanto isso é terrível e doloroso” Conceição Jesus.
Pelo caminho da Maternidade é necessária uma consciencialização aberta e humilde sobre as minorias também. Pode ser algo perturbador, porque o é, abastecermos a nossa percepção de algo tão mágico como é a gestação de uma vida, com a consciência nua e crua de que nem tudo pode ser um mar de rosas. Se tivermos esta humilde forma de aceitação, podemos não só estar preparados para o pior, como estamos, sem sombra de dúvidas, dispostos para a capacidade altruísta de reconhecer um problema verdadeiramente grave.
A sociedade possui um papel fulcral na evolução desta consciencialização, a sociedade sou Eu, Você e todos que de alguma forma implicam a sua estrutura e desenvolvimento. A diferença começa em nós, apesar de estarmos convencidos que os Outros é que possuem a responsabilidade acrescida de fazerem a mudança. É muito habitual ouvir-se falar em responsabilidade social, quando a maior parte da população deste planeta, apenas espera observá-la; é preciso colocar-se em prática este conceito em toda a parte, e neste tema em específico, é imprescindível que se faça já.
“Tive o meu filho às 21 horas, no dia 21 de Julho deste ano, depois de entrar em parto natural, sem qualquer anestesia é que vi: era verdade...ele não chorou...” Sara
Neste vazio do som pela vida escondem-se dramas verdadeiramente trágicos, patologias que nascem decorrentes desta situação, famílias que se desmembram, sonhos que se perdem, histórias que se apagam. Se a maternidade é o apogeu máximo na vida de uma mulher, vamos continuar a mantê-la assim; mesmo que essa maternidade tenha sido tão fugaz como um sopro de vento. Relembrem estas mulheres, que viram partir cedo demais os seus filhos, como Mães; exaltem a sua maternidade todos os dias e não esqueçam a pequena vida que pulsou, mesmo que por breves momentos. Algures, na memória e no coração dessa mãe, aquele filho continuará vivo até ao fim dos seus dias, nada destrói tanto como a indiferença pela sua curta presença.
A maternidade não é apenas e só o resultado de um nascimento a termo, cuja felicidade física é a consequência mais directa. A maternidade é ainda a possibilidade de ser-se mãe de um bebé sem rosto, mas com alma. Será a maternidade mais dura, a maternidade mais cruel, mas não deixa de o ser menos; apenas em condições contra natura.

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