Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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Pelo caminho da Maternidade (II parte)

Proteção de Dados pós confinamento

Escreve quem sabe

2011-01-16 às 06h00

Manuela Pontes Manuela Pontes

Perdi o meu bebé.
Ajudem-me!
O que é que isto tem de urgente, dirão vocês?
Ensinar as pessoas, a sociedade, esta regra básica que tendem a explorar como a excepção ao problema: a morte antes do nascimento.
A Perda Gestacional não é a excepção à gravidez, é uma consequência de um processo natural que, fatalmente, não segue as coordenadas matemáticas de 2+2 = 4. Não é uma excepção, porque diariamente encontramo-la nos corredores das maternidades deste país. Não é uma excepção porque não acontece assim assim, ou de longe a longe. Acontece diariamente, minando vidas e famílias. Pode ser indesejável ler ou ouvir este género de informação, é tão indesejável que, por norma, não falamos ou não exploramos esta realidade na vida comum, contudo a consequência da não querermos ver uma verdade, implica vivermos dentro de uma tômbola que, partindo, não nos prepara para o pior.
Nenhuma mulher, aliás, ninguém está preparada para a morte de um bebé dentro do ventre, não só porque a lei da natureza tem um regulamento: gera-se, nasce-se, cresce-se, envelhece-se e morre-se; mas porque desde cedo o conceito de capacidade reprodutiva é uma certeza do género feminino. Os animais reproduzem, as plantas reproduzem, os seres microscópicos reproduzem, as células reproduzem-se, nós reproduzimo-nos. Esta ideia é tão evidente, que a lógica afasta-nos do improvável. Só que o improvável é tão provável quanto a própria probabilidade das coisas e situações. Nós é que nunca estamos preparados para esta noção de efemeridade e a morte, o fim sobre as coisas, é-nos tão temeroso, que facilmente reforçamos a atenção sobre a vida, equacionando um poder que não existe e não nos pertence.
É impressionante como o nascimento pode ter ligação directa ao fim e não ao princípio de um ciclo, ao longo de 9 anos tenho vindo a constatar que, mesmo com o crescente impacto dos mídia e das redes sociais, cuja informação circula a uma velocidade assustadora, as mulheres com quem contacto após a vivência dramática de uma perda gestacional afirmam que jamais pensaram que isto pudesse acontecer. Reafirmam vezes sem conta que nem imaginavam que tantas outras mulheres passassem por situações limite como esta. Isto prova e sublinha como todos ignoram ou preferem ignorar que há um problema sério que ninguém pretende ver e tratar de acordo com a sua exigência.
“Foi dos dias piores da minha vida...nada fazia sentido para mim. Culpei-me, culpei a colega do trabalho, culpei Deus. Foi muito difícil aceitar. Sei que infelizmente acontece a milhares de mulheres o mesmo que me aconteceu a mim, mas que não temos acesso a informação ou apoio necessário, pois não compreendem a dor tão grande que é desejar um filho e num abrir e piscar de olhos perdê-lo.” Helena valente
Compreender a dor, é disso precisamente que se trata quando falamos em Perda Gestacional. Mas para se compreender um assunto, é necessário que se possa ter o direito à sua informação; para que após a compreensão, se possa dignificar um processo de luto, neste caso, que lhe está associado. Como podemos efectivamente ajudar os outros, quando não estamos, nós, cientes da importância dessa ajuda naquele momento específico? Como podemos ajudar realmente se não estamos em posse de uma realidade? A resposta é simples: não podemos. E ao não podermos, deparamo-nos com dois problemas, ou permanecemos ausentes ou falhamos na execução. Estas duas situações são tão fortes na Perda Gestacional que é vital que se mudem atitudes e comportamentos enraizados nas opiniões sociais. Mais fácil é dizer: “esquece, não chores, és nova, sai com os amigos, isto passa, amanhã já nem te lembras”; mais confortável é não ter que segurar a mão e ouvir o estalido das lágrimas a cair pelo rosto de uma mãe, mais fácil é não precisar que justificar a morte ou encontrar as palavras certas para que se diminua a angústia e a agonia destes momentos. Isto é fácil, mas reveste-se de ausência e prova o quanto falhamos; difícil é mantermo-nos presentes e lúcidos, olhar no olhos de quem sofre e deixar que o silêncio ocupe tudo! Pensem nisto.

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