Correio do Minho

Braga, sábado

Patronos

O nível de vida português pode ser ultrapassado pelos países do leste europeu

Voz às Escolas

2015-12-14 às 06h00

João Andrade

Na nossa proposta de Projeto Educativo, presentemente na sua fase final de aprovação, preconizamos, nos nossos princípios basilares, o “Garantir a aquisição do conhecimento como pedra basilar na construção de uma consciente cultura humanista, artística, científica e tecnicamente dotada” e o “Promover a inquietação como a centelha que motiva a descoberta e a construção do conhecimento”.

Entendemos, em herança do que já sucedia na Escola Secundária, que a evocação de patronos ilustres é algo de essencial na construção de tal desiderato junto dos mais jovens, quer como exemplos de vida, quer como reconhecimento público das mesmas e do seu legado.
O primeiro desses patronos é Alberto Sampaio, cujo exemplo maior nos norteia, que nos dá nome e cuja data de nascimento foi escolhida para Dia do Agrupamento. Recentemente, vários órgãos de imprensa nacional e regional noticiaram a retoma, agora com a adesão do Município de Braga, do Prémio de História Alberto Sampaio, iniciado em 1995 e suspenso em 2008.

Esta retoma, fruto da vontade das entidades signatárias e do empenho dos seus herdeiros, pretende homenagear a memória de um Minhoto tímido e recatado, mas cuja forma de encarar a vida e o saber deixaram marcas indeléveis. Assim, bienalmente, premiar-se-ão trabalhos de investigação em História Económica e Social, áreas onde Alberto Sampaio, enquanto historiador e etnógrafo, se notabilizou a nível nacional.

Como também se pode ver no texto a ele dedicado nos Projetos Educativos do nosso Agrupamento e da Escola Secundária que transportava o seu nome, Alberto Sampaio, vulto da Geração de 70, nasce em Guimarães, em 17 de novembro de 1841. Após estudos de preparação e acesso em Braga, cursa Direito em Coimbra, seguindo a tradição familiar. É aí que faz parte do movimento intelectual conhecido por Questão Coimbrã e que integrou, entre outros, nomes Antero de Quental, Teófilo Braga, Eça de Queirós e Guerra Junqueiro.

De regresso a casa, dedica-se, essencialmente, aos trabalhos agrícolas e à pesquisa histórica. Integra a filial de Guimarães da Associação Arqueológica de Lisboa. É na primeira que conhece e convive com Martins Sarmento (a respetiva sociedade tem o nome de Alberto Sampaio indelevelmente ligado, enquanto fundador), cujos trabalhos de arqueólogo nas escavações na Citânia de Briteiros e Sabroso acompanhou de perto, e que serviriam para aprofundar o conhecimento da história da ocupação humana no noroeste português.

É com base nesses estudos que publica o seu primeiro livro “A Propriedade e Cultura do Minho”, que parece tê-lo colocado no primeiro plano dos economistas rurais, valendo-lhe o convite de Oliveira Martins para colaborar extensamente no seu Projeto-Lei do Fomento Rural, apresentado na Câmara dos Deputados.

Outros títulos publicados por Alberto Sampaio, no âmbito dos estudos histórico-etnográficos, foram: “As Vilas do Norte de Portugal” (considerado o seu estudo mais notável), e “As Póvoas Marítimas do Norte de Portugal”, esta última infelizmente incompleta. Também publicou “O Presente e o Futuro da Vinicultura no Minho”, seu primeiro grande contributo para o conhecimento da economia rural do norte do país.

No ano dessa publicação, desempenha, ainda e com assinalável sucesso, as funções de diretor técnico da 1.ª Exposição Industrial de Guimarães.
No final do ano de 1908, a 1 de dezembro, uma doença de algumas semanas punha termo à existência daquele que foi um dos grandes vultos da cultura portuguesa do século XIX. A este prémio o nosso Agrupamento associa-se inequivocamente, pretendendo-se que a sua entrega ocorra, rotativamente, nas três instituições minhotas que transportam o seu nome, e que, de certa forma, traduzem o seu percurso de vida: o Museu Alberto Sampaio, em Guimarães, onde nasce; a Escola Secundária Alberto Sampaio, em Braga, onde estuda; e o Arquivo Municipal Alberto Sampaio, em Vila Nova de Famalicão, onde elabora muitas da sua obra; e na casa de Boamense, onde falece. Outra figura minhota maior, é Manuel Monteiro, que empresta o nome a excelsa biblioteca da nossa escola sede e que chegou a ser proposto para dar nome à escola em si.

Conforme também referido no espaço pertinentemente dedicado às Bibliotecas Escolares no nosso Projeto Educativo, nasce em Braga a 29 de setembro de 1879. Licencia-se em Direito pela Universidade de Coimbra e é um escritor distinto, com uma vasta obra publicada sobre os mais diversos domínios do saber. Além de académico, foi destacado interventor na vida pública nacional e internacional, como ressalta da lista de cargos que desempenhou e de causas em cuja defesa se empenhou.

Assim, foi Governador Civil de Braga; Juiz do Supremo Tribunal Administrativo; Ministro da Justiça e, depois, do Fomento; Presidente da Câmara de Deputados; Membro efetivo do Diretório do Partido Republicano Português; fundador do Instituto Minhoto de Estudos Regionais; sócio da Academia de Ciências de Lisboa; criador da Liga de Defesa da Região de Braga; apoiante, em 1945, do Comício do MUD de Braga; fundador do Rotary Clube de Braga; Juiz nos Tribunais Mistos do Egito; Presidente do Tribunal Internacional de Alexandria (predecessor do Tribunal Internacional de Haia). Deixa-nos a 18 de janeiro de 1952, em Braga.

Sabemos que, justa e finalmente, é intenção do nosso atual município prestar-lhe uma homenagem digna e à altura da memória deste insigne bracarense e republicano. Além deste dois primeiros patronos, outros nomes preenchem a nossa memória e espaços: Álvaro Carneiro, que nomeia também a rua que envolve a nossa Escola Sede, ou Sebastião Alba, que dá nome ao nosso principal auditório e teatro.

Termino retornando a Alberto Sampaio, que abre o nosso Projeto Educativo, alertando-nos que “fazer pensar é tudo; e a agitação a única alavanca que pode deslocar esse mundo: pois que agitar quer dizer - instruir, ensinar, convencer e acordar” e também o encerra, com a máxima, que assumimos como nossa primeira: “nunca se perde tempo com aquilo que amamos”.

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