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COVID-19: Quem testar? Que testes usar?

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Ideias

2020-04-17 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Com o vírus na rua e as pessoas em casa, logo se aventou a iminência de um surto de violência doméstica. Terá sido um dos primeiros alertas, ouvi referir que a pesquisa de páginas de apoio teria explodido na Austrália. A frequência de sites afins à vítima só poderia significar um acréscimo de malfeitorias, a premência angustiante de encontrar canais de suporte.

Fosse o que tivesse sido, facto é que, entre nós, se terá registado um decréscimo de 15% das queixas reportadas, por comparação com Março de 2019. Mediante o panorama, um oficiante graduado da desgraça, atirava, em tempo televisivo, que a quebra das denúncias poderia não corresponder a uma diminuição da incidência do flagelo, que as autoridades se manteriam vigilantes, patati-patatá. Na mesma linha, uma animadora esganiçada, acolitada por diplomada na autópsia de infortúnios, aventaria, dias depois, se não estariam as vítimas mais condicionadas do que nunca, mais indefesas do que é habitual – harpias planando em torno de caso de maus-tratos, mulher que só passado dois dias teria conseguido pedir ajuda.

Se bem entendo: se tivesse havido um aumento de queixas, teria fatalmente havido um acréscimo de crimes, mas já o contrário não é verdade, posto que a diminuição de denúncias, no mais certo, é que corresponda a um constrangimento ampliado. É possível, como provável é que, no dia em que haja apenas uma acusação, ficado tenham na gaveta, em bocas cosidas e mãos atadas, as mil que fariam capicua.
Análogo se passa com o nosso malfadado vírus: os números que dão, não chegam. Porque é que não nos dizem quantas pessoas testam negativo? Invocava, na última crónica, a conveniência de dispormos de um referente detalhado dos óbitos ocorridos, porque, a dada altura, teremos mesmo que começar a relativizar a situação. Não se assinala, por referência à China, que os óbitos por covid ficam abaixo das mortes não ocorridas por poluição? Quantos não escaparam a fatalidades por acidente de trabalho, por acidente de viação? Eu sei que não se morre de poluição industrial de um dia para o outro, que os acidentes não são contagiosos, que o alarme social é incomparável, posto que numas situações ele é parte integrante, e totalmente inexistente nas demais. Permitam-me que ponha a questão nos seguintes termos: o problema não reside naquilo que me dizem, nas ameaças que eu devo ajudar a conter, em patriótico exercício; o problema está naquilo que não me dizem, impedindo-me de ver o mundo na sua complexidade. Ou, se assim querem, permitam-me que não aceite que me reduzam o mundo a um diabo, a um papão.

Estamos em casa, não podemos passar a ponde de D. Luís, não podemos comprar um robalo à saída do mar, porque uns quantos inconscientes, em quarentena preventiva, desorbitam porta fora, criando o caos, sublinhando o caos que os semeadores do contágio universal nos servem de ciência oblíqua.
Sacrílego eu seja, mas tanto bota para o torto aquele que se expõe deliberadamente e arrasta um parceiro, como aquele que me diz que a besta está em cada virar de esquina, como beato ou puritano de outros tempos pecado via e tentação no seu semelhante.

Emburramos: há pico, não há pico, há multipicos, esvai-se o vírus, para regressar, inevitável é que regresse, mas talvez já haja vacina. Conjecturas com selo de hino patrioteiro. O cuidadoso de hoje sê-lo-á amanhã, sem que isso o imunize. O inconsciente de hoje, sê-lo-á amanhã, sem que o travem.
– Maio, Sr. Presidente? Pois olhe, escrito no Norte, com licenças de objector de consciência: Maio é hoje!

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