Correio do Minho

Braga,

Passos (Para) Fora da União Europeia

Amigos não são amiguinhos

Ideias Políticas

2011-09-23 às 06h00

Pedro Sousa

A semana política fica marcada de forma muito particular pela primeira grande entrevista concedida pelo Dr. Pedro Passos Coelho, na qualidade de Primeiro Ministro de Portugal.

Quero acreditar que foi “apenas” devido a um indesculpável “lapsus memoriae” que não se ouviu a Pedro Passos Coelho uma única palavra sobre a União Europeia, sobre a indefinição que tem norteado a sua resposta à crise (a maior crise económica e financeira de sempre), sobre os seus avanços, recuos, sobre as suas crises identitárias e, ainda, sobre as diferentes faces, mil e uma, com que a União Europeia se tem conseguido mascarar e tantas vezes esconder ao longo do trajecto de construção de respostas concertadas à escala dos 27 para vencer a crise.

Sou um apaixonado pela história da União Europeia, pelos seus valores fundadores, pela sua capacidade de transformar pela coesão, pela partilha e pela prosperidade partilhada.
Sou, também por isso, Europeísta e Federalista convicto; e sou ainda, pelos mesmos motivos, profundo admirador de homens como Mário Soares, Helmut Schmidt, Jacques Delors, Willy Brandt e François Miterrand.

Portugal vive e compete, há muitos anos, num contexto de economia aberta, europeia e tantas vezes global. Portugal perdeu no contexto da adesão ao Euro, moeda única europeia, todos os instrumentos de que dispunha ao nível da política cambial, assim como, de todos os instrumentos ao nível da política monetária.

Perdemos, ainda, neste contexto, muitos dos instrumentos de que dispúnhamos ao nível da política económica e vivemos, hoje, num contexto de política orçamental fortemente restringida.
Tudo o que disse acima pode levá-los a pensar que sou contra o Euro. Nada mais falso. Sou a favor do Euro e sou, como disse acima, Federalista.

Se quisermos ter crescimento económico em Portugal (nem uma palavra sobre este assunto da parte do Dr. Pedro Passos Coelho; provavelmente mais um indesculpável ataque de amné-sia) e nos restantes países da União Europeia é este o tempo de Portugal e dos Portugueses serem extremamente críticos com a União Europeia em que estamos inseridos.

É uma ilusão nós acharmos que podemos discutir Portugal fechados sobre nós mesmos, assistindo ao debate entre os todos partidos políticos com assento parlamentar como se estivesse, apenas, nas mãos dos políticos nacionais a resolução dos problemas que vivemos hoje.
Portugal não depende hoje, na sua maioria, do que pode ser feito no País. Portugal depende, na sua maioria, de um contexto, de um conjunto de países, estratégias e decisões que se chama União Europeia e que está tudo menos preocupada em responder de formar justa, equitativa e partilhada aos problemas dos diferentes estado-membros.

Temos, hoje, uma UE que tem uma arquitectura económica construída com base numa ideologia liberal e monetarista. Temos, hoje, um Banco Central Europeu monetarista, obcecado com a estabilidade de preços, independente do poder político democrático e que não está, como deveria estar e como está, por exemplo, o FED, ao serviço do crescimento económico e da criação de emprego (objectivos maiores para quem pretende vencer uma crise como a que estamos a atravessar).

Por tudo isto os Portugueses não podem permitir e não podem aceitar uma União Europeia que trata uns estados-membros como filhos e outros como enteados; os Portugueses não podem permitir e não podem aceitar ter uma União Europeia que, ao nível das políticas, discrimina os países em função da riqueza ou da falta dela.
Esta é, como diz Mário Soares, uma União Europeia que caminha para a desagregação e assobia para o ar como se nada se passasse.

Enquanto que Pedro Passos Coelho se esquece ou se faz de esquecido em relação à União Europeia como se nada tivesse que ver com o futuro de Portugal e dos Portugueses, eu digo que é bom começar a discutir a Europa a sério.
É da maior importância colocar na agenda de todos uma reflexão, quase um imperativo: Discutir Europa é pensar Portugal.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias Políticas

11 Dezembro 2018

Cultura plena

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.