Correio do Minho

Braga, quinta-feira

PASSOS EM TODAS, E PELA NEGATIVA!...

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Ideias

2015-02-08 às 06h00

Artur Coimbra

1. Estes últimos dias não têm sido nada propícios para Passos Coelho, um primeiro-ministro que dá mostras de imenso desgaste político, denunciando já tiques de autoritarismo e de insensibilidade que são sinais claros de um governante em fim de linha.
Há duas semanas, a rotina da Europa foi sacudida pela frescura da vitória do Syriza, na Grécia, com um programa político baseado na contestação à paixão da austeridade que tem pautado a política das instituições europeias nos últimos anos e que tanta desgraça tem criado nos povos dos países mais vulneráveis.
A vitória do Syriza é geralmente entendida como uma nova esperança de que as nuvens negras que têm assolado a Europa em crise comecem a ser varridas, por novas posturas políticas que privilegiam as pessoas, o seu sofrimento, as suas ambições e não a ditadura dos números e a asfixia do combate ao défice.
Primeiro a Grécia, depois, quem sabe, a Espanha e a Itália… É um pouco uma luta de libertação nacional, sobretudo dos povos do sul, contra o jugo estrangeiro dos credores e da finança.
Curiosamente, todos os líderes europeus - incluindo a alegada dona disto tudo, Angela Merkel - receberam os resultados eleitorais na Grécia com palavras de felicitação aos vencedores e de expectativa sobre o que poderá ser a acção do novo governo helénico que, na verdade, tem mostrado um dinamismo invulgar na tentativa de conseguir apoios internacionais para sair do sufoco financeiro em que o país se encontra.
À saudável postura de expectativa dos dirigentes europeus, respondeu o primeiro-ministro português com a arrogância e a malcriadez de um político não resolvido, revelando até um inadmissível desrespeito pela soberania do povo grego e uma atitude de ingerência nos assuntos internos que não lhe dizem respeito.
Passos Coelho acusou as ideias do Syriza de serem um 'conto de crianças' e criticou, de forma deselegante, pois está a falar de um governo legítimo de um país da União Europeia: “é possível que um país, por exemplo, não queira assumir os seus compromissos, não pagar as suas dívidas, querer aumentar os salários, baixar os impostos e ainda ter a obrigação de, nos seus parceiros, garantir o financiamento sem contrapartidas'?
Parece que Passos Coelho é que é o dono disto tudo, com a sua costumeira pesporrência que já vai cansando, ele que não passa de um minúsculo chefe de governo de um país naufragado, a tentar dar lições de moral e de bom comportamento a um executivo de um país europeu, quando não tem mandato para sequer mandar cantar um cego. Um momento de infelicidade que, afinal de contas, não seria único…

2. Já no início da semana que ontem terminou, Passos Coelho voltou a demonstrar suprema infelicidade, neste caso, no âmbito interno. Numa altura em que se debatia, na sociedade portuguesa, a questão da aquisição pelo Governo, para o Serviço Nacional de Saúde, de um medicamento inovador contra a hepatite C, quando há centenas de pessoas neste país que dependem de um tratamento para não morrerem da doença, sua excelência demonstrou-se novamente um ser insensível à dor e ao sofrimento dos portugueses, ao ter o desplante de declarar que 'pagar uma fortuna para aceder ao medicamento não nos parece uma coisa equilibrada'.
O mesmo governante que afirmou a sua liderança da direita portuguesa a proclamar que tínhamos de acolher as directrizes da malfadada troika, “custe o que custar”, quando se trata de salvar vidas, alto aí, que temos de fazer contas… Não a qualquer custo. Nessa altura, se o preço for elevado, podem os doentes morrer à vontade, que serão menos um fardo para a segurança social ou para o ministério do contabilista Macedo!...
Afinal, quanto vale a vida de um português, de um ser humano nascido e criado num país em que o défice e o “ajustamento” são tarefas patrióticas, mas não a saúde e o bem estar das pessoas que o governo se comprometeu constitucionalmente a defender e salvaguardar?!...
Para mais quando o mesmo personagem não se coibiu de dizer quer não falta dinheiro para a saúde (então porque teimava em deixar morrer tantos doentes?!...) e até afirmou que Portugal não tem médicos a mais e que os privados têm aí uma oportunidade de negócio (sempre a agenda ideológica a colocar a tónica no privado)!...É claro que todos sabemos que, ao invés, a saúde está por um fio, por atroz falta de financiamento, que foi cortado até níveis inimagináveis por este governo e que ao realidade é que não escasseiam médicos, que até já emigram...
O que falta é um governo sério que valorize os profissionais de saúde, lhes pague o que merecem, para que não tenham de ir para a Inglaterra, a Suécia ou a Alemanha receber mais e serem valorizados profissionalmente como não são no seu país!
Ainda bem que prevaleceu o bom senso e o governo acabou por acordar o fornecimento do tratamento para os doentes com hepatite C.

3. E como não há duas sem três, foi conhecido o relatório sobre a pobreza em Portugal, que refere que há 2,7 milhões de cidadãos no limiar da pobreza, em virtude da austeridade, dos cortes e do empobrecimento generalizado que o governo empreendeu com todo o voluntarismo. Um nível de pobreza que não se registava há 10 anos. Logo veio Passos Coelho proclamar que os dados da pobreza de 2013 são um eco do passado e que a «fase mais difícil» foi ultrapassada.
O embate com a realidade foi mais forte: logo vieram os representantes de instituições sociais contrariar o primeiro-ministro e deixar o aviso. A pobreza, em Portugal, não é um problema do passado. E “o pior ainda não passou”. Defendem-no os responsáveis da Cáritas, do Banco Alimentar Contra a Fome e da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade Social, que sustentam, com conhecimento de causa, que “o risco de pobreza se mantém”.
Mais, nas palavras de um economista, de que não fixei o nome mas a ideia, “a pobreza não nasce de geração espontânea nem de pai incógnito. Ela é filha de um modelo económico baseado nos baixos salários”.Pode Passos Coelho pintar uma situação cor-de-rosa, por demagogia, afirmando que o país está bem, os portugueses é que nem tanto. Mas que honra há num país em que um em cada quatro cidadãos está no limiar da pobreza e um em cada cinco não tem emprego?!...

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