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Páscoa - A tradição que se vai perdendo

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Páscoa - A tradição que se vai perdendo

Ideias

2022-04-17 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Celebra-se hoje o dia de Páscoa, depois de dois anos em que o confinamento provocado pela pandemia de Covid-19 determinou a ausência de cerimónias sociais e religiosas.
Foram dois anos marcados por um isolamento familiar e por um controlo a quem tentava deslocar-se para lá da área geográfica do seu concelho. Teremos que esperar algum tempo mais para examinarmos se as limitações provocadas pela pandemia contribuirão para reduzir algumas das mais belas tradições da nossa região, associadas à Páscoa.
Sendo uma das maiores tradições anuais do Minho, verificamos claramente que a Páscoa tem vindo a perder influência na nossa região, quer no âmbito familiar, quer social. Basta verificarmos que hoje são cada vez menos os lares que abrem as suas portas ao Compasso Pascal.
Até ao final do século XX, os dias que antecediam a Páscoa eram marcados por uma enorme azáfama nas famílias e nos lares. Associado também aos dias primaveris, esta era a altura em que as casas eram limpas e arejadas, depois de meses de inverno.
Em “Tradições e Usanças Populares” (1924) Alberto Braga refere que no dia de Páscoa “não há lavrador nenhum que não ajeite a sua mesa, ou melhor, ponha a sua mesa, (pobres, ricos ou remediados, todos querem receber adentro das suas portas) com flores modestas das arribadas: coroas-de-rei, pucarinhos, pregos-de-oiro, etc. e ao centro dela a esmola que destinam ao seu pastor, conforme as posses de cada um”.
Na Páscoa todos tentavam oferecer ao padre o melhor que podiam e tinham. Mas os ricos destacavam-se claramente, colocando no “centro da mesa, além dos doces e vinho e mais lambarices, põem sempre a sua oferta, que consiste em meados de linho e ovos e as tradicionais maçãs com dinheiro espetado…”, acrescenta Alberto Braga.
Depois de alguns minutos de conversa com os presentes, o padre pedia licença para levantar aquilo que a si era destinado, levando principalmente “as maçãs e o dinheiro”.
Na mesa da Páscoa não faltavam os ovos cozidos, de várias cores, que se colocavam em cima da mesa. Esses ovos ganhavam as cores dependendo da forma como eram cozidos: “com água que leve cascas de cebola, ficam castanhos; com lírios roxos e cascas de cebola, ficam côr castanho-escuro; com flor de mato, ficam amarelos; com lírios roxos, ficam roxos” (Id.).
A dona de casa, como então era conhecida a mulher casada, tinha como grande preocupação manter as flores na mesa durante as vinte e quatro horas seguintes!
O padre e a comitiva que compunha o “Compasso” entravam e saíam com mais pressa na casa das pessoas mais humildes, demorando-se nas casas dos mais abastados, onde normalmente ficavam sentados durante algum tempo, a conversar, a rir e a comer, tal era a fartura de comida e de bebida, especialmente o vinho do Porto, que se espalhavam pela mesa coberta com toalhas brancas de linho.
Na obra “Ao Compasso das Semanas”, Aníbal Mendonça escreveu, em 1958, que “Não há em todo o Minho festa mais risonha, mais doce, mais feliz que a do Domingo de Páscoa”, destacando-se nas mesas minhotas “o vinho fino, as amêndoas e o pão-de-ló”.
O autor refere que no dia de Páscoa, por todo o Minho, verifica-se um “espectáculo de uma inefável ingenuidade, de um suave e cândido primitivismo, que se segue ao «confesso» quaresmal”.
Nos dias que antecedem a Páscoa, todos os membros da família dedicam-se a tarefas de limpeza da casa, “Os folares distribuem-se, as casas limpam-se, refrescam-se e compõem-se com a arte delicada que seria posta num pequeno presépio, as mantas, as colchas e as toalhas vão buscar-se embevecidamente ao fundo do arcaz da roupa, que é o precioso património doméstico, a sala de entrada, espaçosa e caiada, refulge de alegria e de fartura, com a mesa, ao centro, carregada de maçãs, de laranjas, de ovos, de bolos, de regueifas de trigo alvo, de roscas de pão-de-ló, de jeropiga, de camélias vermelhas e de cestos grandiosamente decorados”.
Aníbal Mendonça acrescenta que no domingo de Páscoa, a família espera ansiosamente pela visita do “Compasso”, para serem “abençoados os habitantes do lar, os móveis, as alfaias, as paredes, os soalhos, os escaninhos, enquanto aquele símbolo de fé passa de boca em boca” provocando momentos de grande emoção, onde os “namorados entreolhando-se enlevados, as crianças ao colo das mães ou agarradas ás suas saias, os velhos trémulos e sorridentes, os enfermos comovidos, graves, quase tomados de um súbito êntase, gente estranha à família que entra também e se associa aos votos de felicidade formulados”.
Nesse dia, são visitadas várias pessoas, vários amigos, várias famílias, aproveitando a oportunidade para assistirem ao “Compasso” em vários lares.
Aníbal Mendonça refere ainda que o dia de Páscoa, no Minho, ficava marcado por uma “enternecedora peregrinação (…) de lugar em lugar, de porta em porta, pisando ramos de mimosas, erva doce, folhas de funcho e de eucalipto, a minúscula campainha brandida com alvoroço, a saca ou a bandeja das moedas empunhada pelo ajudante do mordomo, a criançada atrás ou ao redor numa insaciada curiosidade, seguindo discretamente o pitoresco cortejo…”.
Em muitas freguesias do Minho as cerimónias pascais prolongam-se para a segunda-feira, sendo a freguesia “percorrida de ponta a ponta, sem se atender á pobreza das fachadas das janelas”. Nessa ocasião, “o crucifixo de prata da paróquia, apoiado com firmeza no braço esquerdo do mordomo, ladeado pelo rapaz ladino que conduz a caldeira de água benta, vai aos casebres toscos, ornamentados de vasos singelos e de mato ou ramos de pinheiro, ás residências das classes médias e ás opulentas casas das gentes fidalgas e influentes, com oratórios sumptuosos, baixelas antigas, copos cinzelados, toalhas rendadas, quadros dos antepassados veneráveis nos extensos e sombrios corredores…”.
Eram estas as principais caraterísticas que marcavam a Páscoa no Minho. Veremos se este ano são recuperadas algumas destas tradições, ou se é confirmado o distanciamento crescente que nos últimos anos se tem verificado.

A todos uma boa Páscoa.

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