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Páscoa à Covid

A saia comprida

Páscoa à Covid

Voz aos Escritores

2020-04-10 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Saudades em lume brando de abraços e beijos, de paisagens e horizontes, de rostos e vozes. Um mês pode não ser suficiente para demolhar receios, por isso há que bater ansiedades com cautela para não entornar ou inflamar cozeduras.
Não há o regresso às aldeias ou idas ao Algarve. Um recolhimento obrigatório, sem ajuntamentos de maior para não colocar ninguém em risco. Custa, é um facto, mas é imperativo para a sobrevivência, principalmente dos grupos de risco.

Basta pensar em todos os que têm de sair de casa para que não nos falte nada, desde os funcionários de assistência médica aos de recolha de resíduos, todos com a mesma dignidade, e a casa torna-se um forte seguro, um Éden. Aliás, é uma guerra em que apenas nos pedem para ficar em casa, sem privações de maior, para já, e todo o conforto a que nos habituamos.
Mas se é assim para a maioria, o escalar das denúncias de violência domésticas mostra-nos que há campos de guerra privados em manutenção constante, onde o confinamento se torna uma ameaça maior do que o vírus. Em alguns países corre o código “máscara 19”, nas farmácias, como uma forma das vítimas pedirem auxílio. Aqui não sei se acontece o mesmo.

Os tempos não são fáceis, são suspensos, são novos, são um teste à resiliência de cada um e de todos nós. É o tempo da queda de todas as máscaras. Se a bondade exala em muita gente e os transforma em gigantes, desde a adequação das empresas para a produção do que faz falta no país, e faz falta muita coisa ao contrário do que disse o Primeiro Ministro, à criação de redes de comunicação e apoio a quem precisa, desde hospitais, centros de saúde, lares e famílias. Sim, já há pessoas a pedirem comida e o Banco Alimentar, bem como muitos anónimos, já se mobilizaram para ajudar. Por estes motivos, mas também pela solidão e sensação de abandono, é muito importante que falemos, com toda a segurança, com os nossos vizinhos, saber como vão e o que lhes faz falta. Pequenos gestos que fazem toda a diferença.

Com a queda das máscaras fica também mais evidente a natureza de cada um, os campos férteis da mesquinhez, do egoísmo, da maldade. E por isso é tão importante disseminar a bondade, a importância do outro, porque não vivemos nem sobrevivemos sozinhos em nenhum contexto. Tudo isto passará, uns irão ficar bem, outros não, já sabemos. Mas tenhamos memória de tudo isto, para o futuro, para fazermos escolhas diferentes sobre a vida que queremos para nós e para os nossos descendentes.

É certo que nenhum país nem nenhum sistema de saúde estava preparado para isto. E se por um lado o nosso Governo tomou medidas em tempo útil, de forma a prevenir o horror que acompanhamos diariamente em Itália e em Espanha, fora os que ainda vêm por aí devido a um erro de palmatória na perspectiva dos seus dirigentes, mais preocupados com a causa financeira do que com a humana, por outro lado a demora em fechar e controlar as fronteiras pode ser responsável por alguns casos e algumas mortes. Tudo porque ainda temos muitos fantasmas do tempo da ditadura que hoje não fazem qualquer sentido, embora haja sempre quem se queira aproveitar politicamente disso.

É tempo, sobre tudo, de alinharmos prioridades individuais e coletivas. A crise económica não vem aí, já está instalada. A que já nos espreitava e a que se adiciona devido ao isolamento obrigatório. As linhas de crédito disponibilizadas as 3% de juro ou mais é um insulto a todos os portugueses que contribuíram, ainda que involuntariamente, para salvar os bancos. É um insulto às empresas que não querem despedir, que não querem fechar e abrir mais tarde com menos funcionários e menos encargos. É um insulto para quem acredita e quer um país justo e limpo, como nos falou Sophia.

E que dizer dos juízes que libertam, sem mais nada, os desobedientes às autoridades sobre o confinamento obrigatório? Um insulto aos profissionais de segurança pública e aos governantes. É aumentar-lhes os salários, senhores, e deixar os enfermeiros serem pagos a pouco mais de 6 euros por hora.
É tempo de memória, de ajustes, de sublimação. De aumentar a dose de bondade e de justiça em todas as receitas. De nos lambuzarmos com isto como se fosse o melhor ovo de chocolate do mundo. Porque é.

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