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À partida não é assim!

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À partida não é assim!

Escreve quem sabe

2021-03-03 às 06h00

Cristina Fontes Cristina Fontes

Se agora, a nossa língua está pejada de expressões anglo-saxónicas, tempos houve em que o francês dominava. Hoje, veremos algumas que usamos ou vemos usar frequentemente.
“A partir de” (do francês “à partir de”) é usada nos mais variados contextos e é muitas vezes redundante. Vejamos a seguinte frase: “Aquela fotografia foi tirada a partir do cimo da Serra da Estrela.” Por que não dizer apenas “Aquela fotografia foi tirada do cimo da Serra da Estrela.”? E quando lemos no aviso de abertura de um estabelecimento comercial “A loja abre a partir das 09:00.”? Será às 9:00, às 09:05, às 10:00? E quem nunca viu anunciado que o jogo de futebol entre a equipa A e a equipa B começa a partir das 18:00? Não, não começa. Começa às 18:00.
“Fazer face” (do francês “faire face”) está disseminado na escrita e na oralidade. É erro? Não. Porém, tal como outras expressões francófonas, tem correspondentes portugueses que podem e devem ser usados: “enfrentar” em vez de “fazer face”; “perante” em vez de “face a”; “frente a frente” em vez de “face a face”.
Ultimamente, temos ouvido falar de “vacinação massiva”. Mais uma vez, se procurarmos em alguns dicionários, o adjetivo “massivo” está lexicalizado. Todavia, podemos questionar-nos sobre a razão de importar estrangeirismos (massive - inglês /massif – francês) quando temos termos equivalentes na nossa língua: maciço.
Se há francesismos que facilmente podem ser substituídos por palavras portuguesas (ex.: desmanchar – desmontar; ecrã – monitor; gafe – descuido; gare – estação; lingerie – roupa interior; nuance – matiz; robe - roupão) para outros seria difícil e até caricato a sua substituição. Já pensou em dizer “lactário” em vez de creche? Se o chamassem para o postigo sete, saberia que teria de se dirigir ao guiché sete? E que tal passar uma manhã a ver escaparates em vez montras? Se em vez de tomar o pequeno-almoço, tomasse o desjejum? Por não haver correspondente direto em português, também seria impossível deixar de dizer batom, boleia, croché, naperon, omeleta ou rissol.
Não pense o leitor que estou numa batalha de purismo linguístico. Não se trata disso. Aceito (com algumas reservas) o Acordo Ortográfico de 1990 e uso-o. No entanto, sendo professora de Português, leitora ávida e crítica atenta, parece-me que devo, pelo menos, chamar a atenção para a riqueza da nossa língua e da panóplia de vocabulário por descobrir (ou a reavivar).
Na semana passada, num texto satírico (ou não) no jornal Observador (http://bit.ly/3q0x4I0), Alexandre Borges escrevia “O português está prestes a bater a bota pela mesma razão que todas as outras línguas que não o inglês estão prestes a bater a bota: a monocultura do sucesso.”

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