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Braga, sábado

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Participação política e internet

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2016-03-03 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

O papel dos media, da Internet e nomeadamente as plataforma sociais, é inquestionável nas sociedades de informação em que vivemos. Não se trata apenas de estimular a cidadania, permitir aos políticos chegar mais perto das pessoas e das sua reais preocupações e facilitar o debate, o que é inegavelmente positivo. Nesse sentido, contribuem para uma comunicação direta mais próxima entre pessoas com pontos de vista muito diferentes, o que pode criar um espaço para aparecerem novas ideias e eventualmente novas soluções.

É bom haver criatividade e diversidade nos pontos de vista, e as pessoas poderem ser ouvidas e as suas ideias apresentadas. Nada disto é novo; aliás, existem mesmo modelos matemáticos que demonstram que quando os grupos têm maior diversidade de opiniões, e as transmitem uns aos outros, são capazes de identificar com maior facilidade soluções ótimas, como Farrel e Shalizi referiam em 2013. Resumindo, tudo isto significa um potencial reforço da democracia - “e isso não é mau”.

Mas. Neste ponto, o meu defeito profissional leva-me a lembrar de uma das “histórias” mais conhecidas da economia. Imaginem uma praia, e um vendedor de gelados (ou de bolas de Berlim!) calcorreando a mesma para tentar vender os seus produtos às pessoas que se vão distribuindo, de forma uniforme, no areal. Como seria de esperar, um segundo vendedor de gelados irá tentar a sua sorte; podem mesmo combinar entre si, e cada um se localizar numa das extremidades da praia, e aí montar um posto de venda, poupando as pernas…

E assim cada um ficará o vendedor mais conveniente para os potenciais consumidores que estejam mais perto; basicamente, cada um fica com metade. Pois é: mas quer-se sempre mais, e por isso cada um vai tentar aumentar a sua quota de mercado, desviando o seu posto de venda cada vez mais para o centro da praia. E o que um faz, o outro reage da mesma forma, e também faz, até que acabam os dos no centro da praia, os dois postos de venda de costas voltadas um para o outro.

Os consumidores poderão ter vantagens, principalmente se o gelado que um quiser não existir num dos vendedores - mas serão agora os consumidores, eles próprios, a suportar os custos de calcorrear a praia. Sim, eu sei - fazer exercício é bom, mas ainda assim tem um custo. Por outro lado, se os preços forem os mesmos, então os dois vendedores tenderão a vender apenas os gelados que os potenciais clientes mais comprem. Ou seja, a tendência é para que a diferenciação seja mínima.

O aumento da utilização da Internet e das redes sociais, curiosamente, tem sido associado com um certo desencantamento com a atividade política, consistente com a diminuição do número de eleitores participantes nos atos eleitorais, mobilizando em vez disso outras formas de participação política. A facilidade de entrada nas redes, a facilidade na divulgação de ideias e o debate que surge, de certa forma paradoxalmente, contribui para uma diferenciação mínima, porque as pessoas tendem a organizar-se em grupos, subscrevendo as opiniões uns dos outros.

Um cientista político chamado Barberá, usou a campanha presidencial de 2012, nos Estados Unidos, para mostrar que as trocas de opinião no Twiter se deram, fundamentalmente entre pessoas com pontos de vista idênticos.
O estudo do impacto político da internet e a eventual polarização política capaz de induzir e acrescer a mobilização de radicalismos está ainda na infância. Mas seguramente, o populismo que fez época no século XX, encontra aqui um canal de excelência.

Enfim, ideias que me vou tendo quando ouço, mais uma vez, as intervenções de Trump nas primárias americanas, e vou lendo os resultados que vai obtendo. E dou por mim a imaginar um futuro próximo em que a Inglaterra saia da União Europeia, as fronteiras de novo fechadas à circulação das pessoas, com barreiras administrativas à circulação de mercadorias, o esvaziamento progressivo dos princípios de bem estar social, Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, os radicalismos multiplicando-se.

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