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Braga, segunda-feira

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Paraíso existe?

A recuperação das aprendizagens

Conta o Leitor

2021-08-30 às 06h00

Leitor Leitor

Texto Cecília Almendra

Foi nessa noite de verão que abri a carta. O céu estava estrelado e a lua cheia iluminava o mar que ia suavemente beijando a areia fina da praia. Sem horas para voltar, gozava de um prazer único, o de estar sozinha e poder interiorizar tudo que minha querida mana ia contar naquela carta à muito desejada.
Eramos manas na amizade de adolescência, num país do outro lado do oceano. Tínhamo-nos separado e nunca mais houve a oportunidade de nos reencontrarmos. Passaram dez anos, mais dez anos, outros dez anos e fomo-nos afastando da juventude e envelhecendo também. Certo dia, disse que queria contar-me um episódio real que vivenciou, mas nunca teve coragem de dizer a ninguém. Ficou a promessa de me contar o sucedido na próxima carta. Sílvia era muito segura de si e tinha alguma dificuldade em exprimir sentimentos que a deixassem vulnerável.

Não falava de nada que não fosse objetivamente claro e racional. No entanto, possuía um coração bondoso, era prestável e abalava-se pelo bem do outro.
Delicadamente vou abrindo a carta sobre meu colo e apontava a pequena lanterna para o papel.
“Querida amiga, não me conformo até hoje por teres ido embora para Portugal! No entanto, sabemos que esse dia chegará e o reencontro será festejado como deve ser, não achas que merecemos?!
Bem sabes amiga, que ao longo de minha vida tive algumas experiências que me despertaram espiritualmente. Hoje posso dizer-te que já não concebo a minha vida sem o meu Pai Celestial. Talvez por isso mesmo, estou aqui e vou tentar explicar-te o que se passou. Como me senti, o que pensei, o que não gostei, tudo que tenha retido daquele dia e desse momento especial.

Sabes como a vida é aqui em São Paulo! Fui passar de sexta para sábado em casa das minhas primas. Tínhamos programado passar o dia no clube. Como havíamos tido uma conversa nessa noite em como não custava nada fazer voluntariado por duas horas antes de seguirmos para o clube e assim foi. A prima mora perto do Hospital das clínicas e por isso decidimos dar lá um salto e confortar os familiares daqueles que partiram. Fizemos essa caridade e lá fomos até ao ponto do ónibus (autocarro).
Quando chegou finalmente o nosso, subimos e estava complicado de arranjar espaço para nos segurarmos na trave acima das nossas cabeças. Ia super lotado! Lá nos agarramos e pensei para comigo, temos meia hora de caminho e quando chegar dou um valente mergulho.
Não sei precisar mas poucos minutos depois, senti-me ausentar do meu corpo. Deixei por completo de me ver, bem como tudo ao meu redor! Foi tipo um apagão mas por outro lado, a minha consciência era de tal forma lúcida que o meu raciocínio tornou-se uno com o meu sentir.

Como bastasse o pensar e sentir, eu era só isso! Inexplicavelmente grandioso e completo. Senti-me envolvida em tanto amor e felicidade que comecei a perceber que não era possível da forma como a conhecíamos. Estava num estado de deslumbramento e comecei a temer que acabasse! Dizia para mim como um disco riscado que não sai do lugar, isto vai acabar, meu Deus isto vai acabar… não existe! Estou no paraíso, só pode ser! E por mais que desejasse continuar ali tinha bem presente que estava em outro lugar e sofria com a possibilidade de voltar ao mundo como o conhecia.

Até ao momento em que alguém em minha consciência disse: Olha para baixo e vejo os meus pais de mãos dadas a entrarem no clube para onde nos dirigíamos. A primeira reação ao olhar para baixo foi de repulsa, tipo um lugar escuro, repugnante. Fiquei entre a “espada e a parede” pois tinha de escolher ficar ou ir. Por amor escolhi ficar com os meus pais. Apenas por pena de os deixar sozinhos. Essa decisão foi para mim muito penosa. Quando volto ao corpo físico estou já fora do transporte e a caminhar na entrada do clube. Sabia que ainda não estava desligada desse outro plano. Ainda estava tão feliz como se flutuasse, mas sofria com o momento desse desligar. Foi como um fechar de persianas num lindo dia de sol.
Querida amiga, não posso alongar esta carta. Que fique entre nós esta minha passagem!”
Conclusão: Quem disse que o Paraíso não existe?

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