Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Paradas Militares

Sinais de pontuação

Ideias

2014-09-03 às 06h00

José Manuel Cruz

24de Agosto foi dia de paradas militares: em Kiev e em Donetsk. Emblemática - a de Kiev - pelo aprumo da guarda de honra: o elástico passo de ganso, o mesmo da era soviética, como igual se mantêm a ordenação das fileiras, o olhar e o ângulo de abertura dos perfis. Estou em crer que até as fardas e os chapéus são os de então. Marchavam em Kiev, mas sem escândalo desfilariam na Praça Vermelha.

Fina porcelana em Kiev, loiça andadeira, de feira, o cortejo de Donetsk. Revejo, numa fotografia do Libération, a angústia e o ódio da procissão de Donetsk. Lado a lado, três filas compactas de cativos ucranianos, o do meio com sinais óbvios dumas murraças, enquadrados por milicianos de idades dispersas, alguns com armas automáticas, outros com carabinas de baioneta em riste.
No desfile de Donetsk não há uma coreografia ensaiada, um extremo de elasticidade e vigor, uma uniformidade e um uníssono, símbolos viáveis dum exército treinado, coeso, vencedor. No entanto, quanto lhes falte em formalismos de academia ou caserna, em encenações de praça de armas, sobeja-lhes em determinação e resistência.

Os que desde a primeira hora se indignam com a ousadia separatista, com a criminosa ingerência e os indesculpáveis tiques imperialistas de Moscovo, de pronto sublinham a mesquinhez da exposição pública dos prisioneiros. Que é contrária às convenções internacionais! Que viola os direitos dos prisioneiros de guerra! Cínico possa eu parecer, mas ainda bem que fazem prisioneiros, ainda bem que se abstêm da selvajaria do assassinato indiscriminado.

Uns e outros, diga-se em abono da verdade. Ainda bem que na Ucrânia oriental não se cai na carnificina de Gaza. Com todas as sanções que são anunciadas, a cada passo mal dado da Rússia, por maioria de razão já Israel deveria estar ha muito na lista dos párias internacionais, com as relações bilaterais suspensas, de acesso vedado à ONU e entidades congéneres.
Fascistas! É o grito que se ouve, amiúde, saído da multidão. Desconheço qual seja a ofensa mais grave que possa ser proferida em português. Se calhar não temos nenhuma.

Para os russos, não há palavra que concentre mais ódio que o termo fascista. Reconheço que, russos há, para quem a palavra mais hedionda seja comunista, quem veja esse período como o mais deplorável de todos os equívocos da humanidade.
Mas essa é querela pela qual não perco um amigo ou me antagonizo com quem quer que seja. Fascistas! Grito vazio, acusação anacrónica e sem substância?
Ou um manifesto, uma garantia, de que se oporão a ucranianos, hoje, tal como então enfrentaram a wehrmacht alemã?

É que há coisas que não esquecem, e os alemães nem foram assim tão mal acolhidos por aquelas bandas.
Como é que toda esta infelicidade vai terminar?
Ganharão os russos?
Os ucranianos?
Perderão os dois, e nós com eles?

Tínhamos a ilusão duma Europa unida, extensa, dos Urais ao Atlântico. Tínhamos a aspiração dum espaço tão plural como homogêneo, a esperança duma sinergia gigantesca, duma economia efervescente, dum bem-estar inaudito.
Seria, assim, à escala duma Europa unida, que dialogaríamos com parceiros e competidores, com os EUA e com a China, por exemplo.

Seria à escala duma Europa unificada que projectaríamos investimentos e desenvolvimento, que delinearíamos instituições. Todos os bons passos vinham sendo dados. Metade do continente já tinha arrumado nos anais da História fronteiras antigas e nacionalismos primitivos, a tortura de quezílias longas e violentas. E veio o dia em que deixou de haver duas Berlins e duas Europas. Não estaria logo ali, o futuro magnífico, mas era inexorável.

Pode contrapor-se que não há razão alguma para que se vá tão longe, que pouca vantagem há em que russos ou udmurtes participem das instituições europeias, que bem contentes ficamos com ucranianos e, vá lá, logo que ganhem juízo, com bielorussos. Mas o namoro à Ucrânia para já deu no que assistimos. Transbordando de autosuficiência, o jovem presidente ucraniano anunciou um reforço de 2,2 MM € para equipamento das forças armadas. Logo a Ucrânia, país de finanças arruínadas, e não ter mesmo mais onde aplicar ajudas financeiras. Ou talvez os créditos sejam exactamente para isso.

Alastre o conflito entre ucranianos e russos. Ganharão os ucranianos e os seus mentores. Desfeiteada, a população russa recolherá à mãe-pátria.
Uma certa Europa cantará vitória, mas a ferida com a Rússia ficará para sempre. Ganharão os russos, e ficaremos todos de pé atrás. O diferendo foi longe demais.
A Alemanha tem ido longe demais.Tenho presente as críticas que ainda há pouco tempo endereçávamos à Alemanha na resposta à crise financeira que, entre outros, abalou Portugal. Os alemães prosseguirão sempre uma estratégia pessoal.
Numa Europa sem russos, na verdade ninguém disputa o trono aos alemães. Com russos, outro galo cantaria. Eles sabem. Nós, parece que não queremos saber.

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