Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Parabéns ao GNRation

Sinais de pontuação

Ideias

2016-05-03 às 06h00

Jorge Cruz

1. O terceiro aniversário do GNRation, edifício que constitui um dos principais legados da Capital Europeia da Juventude, foi (bem) assinalado ao longo de todo o dia de sábado, com um extenso programa de actividades transversais, abertas gratuitamente aos diversos públicos-alvo.
Foi uma comemoração feliz, de uma estrutura que se tem vindo a afirmar, paulatina mas categoricamente, como uma das principais referências culturais da cidade de Braga, em particular ao nível da programação para a juventude. Desse ponto de vista, aliás, poder-se-á até afirmar que o responsável pela programação logrou passar para o terreno, ou seja, conseguiu materializar a ideia do ar- quitecto responsável pela notável recuperação e transformação do antigo edifício-sede da GNR. Concretamente, estou a lembrar-me daquilo que Carvalho Araújo, o autor do projecto, escreveu: “num momento de mudança e comemoração do espírito da juventude, o edifício do GNRation não podia permanecer invisível, tinha que saltar para a arena, ir para o palco e vestir lantejoulas.”
De facto, é precisamente disso que se trata quando se constata que o programa cultural desta estrutura bracarense tem marcado uma acentuada diferença, quer na cidade quer na zona norte, ao nível da música contemporânea e das artes digitais. Os quase 35 mil visitantes que o GNRation recebeu no ano transacto são a demonstração inequívoca da curva ascendente que o crescimento de público regista, incremento esse que é potenciado por um conjunto transversal de actividades culturais para os distintos públicos, embora com particular e natural incidência na juventude.
Claro que três anos é ainda muito pouco tempo para nos permitir efectuar um balanço rigoroso. Creio, no entanto, ser consensual dizer-se que a marca GNRation tem vindo a valorizar-se através de uma noção conceptual de programação de qualidade, que privilegia a juventude mas não se esgota nesta faixa etária, e que naturalmente fideliza de forma gradual os públicos. Também porque a sua intervenção cultural desen-volve-se numa lógica de complementaridade e não concorrencial com outros espaços de referência, como é o caso do Teatro Circo.
Infelizmente, porém, nem tudo é um mar de rosas, conforme o próprio director artístico do espaço admitiu há dias em declarações ao jornal Público. O problema, segundo Luís Fernandes, é de identidade ou, se quisermos, de falta dela, o que decorre das múltiplas funções desta estrutura municipal.
Na verdade, aqueles que têm a responsabilidade de criar e afirmar quotidianamente a marca identitária do GNRation ainda se defrontam com alguns constrangimentos perfeitamente inadmissíveis e que, além de confundirem o público, dificultam as tarefas de gestão do espaço.
Refiro-me, concretamente, ao facto do edifício albergar serviços que nada têm a ver com a missão do GNRation, como são, entre outros, os casos dos serviços da Assembleia Municipal, do Provedor do Munícipe e dos gabinetes dos vereadores da oposição, que coabitam também com a Startup Braga e com a Loja Europa Jovem. Por outro lado, o espaço é frequentemente utilizado pelo município, pela Fundação Bracara Augusta e pela InvestBraga para realizações diversas, de simples reuniões a conferências e exposições.
Se em alguns casos se pode falar em subsidiariedade em relação à missão principal, noutros é notória a ausência de ligação, mesmo que ténue, às questões de juventude.
“Há coisas que não parecendo que fazem mal à primeira vista, afectam muito a percepção das pessoas sobre o espaço”, lamentou-se o director artístico, com a convicção de que hoje a grande dificuldade do GNRation é encontrar “um factor muito claro com que as pessoas se identifiquem”.
Percebo perfeitamente o desabafo de Luís Fernandes, até porque não tenho quaisquer dúvidas quanto à razão que lhe assiste. Creio, aliás, que os créditos conquistados lhe dão todo o direito de manifestar o seu estado de espírito, que, de resto, poderá ser uma excelente oportunidade para Ricardo Rio reequa- cionar o figurino que impôs para o polo cultural que é o GNRation e, já agora, para decidir da continuidade ou não da própria Fundação Bracara Augusta.


2. Ainda no âmbito cultural, não quero deixar passar o ensejo para uma breve referência à exposição de material de fotografia que o fotógrafo bracarense Luís Machado organizou e tem patente em S. Vicente desde Fevereiro.
A admirável mostra, que tem feito as delícias dos amantes da arte fotográfica, além de satisfazer a curiosidade de muitos bracarenses, resulta do vasto espólio pessoal daquele profissional de fotografia e retrata fielmente a evolução do equipamento nos últimos 150 anos.
De salientar - e enaltecer - a acção pedagógica do próprio Luís Machado, quando recebe e ciceroniza grupos de alunos de escolas, aos quais explica todo o processo prático da fotografia numa louvável manifestação de amor à arte.
Numa cidade que é sede dos Encontros da Imagem, um dos mais importantes eventos do género, é pena que não seja possível juntar vontades, aproveitar sinergias, para que esta exposição temporária se transforme em permanente.

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