Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Para onde vão as nuvens?

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2014-10-03 às 06h00

Margarida Proença

Um dos últimos relatórios divulgados pelo FMI (outubro de 2014), sobre as nuvens e incertezas que rodeiam ainda a situação económica mundial remete, a certa altura, para um livro também recente sobre o conceito de “estagnação secular”. O livro em causa inclui diversos artigos publicados por economistas de grande relevo, e que na verdade pertencem a escolas de pensamento diferente; trata-se de um trabalho editado por Teulings e Baldwin, e pode ser facilmente acedido através da net (Secular Stagnation : facts, causes, and cures).

Como sempre haverá quem discorde e quem concorde; é argumentado que esta crise veio exigir um olhar novo sobre as políticas macroeconómicas que devem ser implementadas ou não, e a dificuldade de encontrar os instrumentos corretos para tal; olhando para 2006, o ajustamento que grande parte das economias mais importantes no mundo reduziu drasticamente os défices, mas colocou-as também numa via de crescimento muito abaixo do que era previsto antes da crise, e abaixo do que seria esperado em termos de crescimento potencial a longo prazo, principalmente na Europa.

Neste contexto, a evolução demográfica, a rápida tendência para se atingir o objetivo da educação de massas, a manutenção de taxas de juro baixas, podem contribuir para uma previsão de que será difícil conseguir crescimento económico, níveis elevados de emprego e estabilidade financeira. As famílias não consomem o suficiente, as empresas não produzem nem investem o suficiente, ainda que as taxas de juro estejam, e se mantenham, muitíssimo baixas.

O relatório do FMI sugere que pode estar na altura de aumentar o investimento em infraestruturas públicas, expandindo por essa via a capacidade produtiva e suportando o crescimento, mas num quadro em que se garanta a eficiência do investimento e um controle elevado sobre a forma como é financiado.

Caberia assim aos governos estimular a economia até que o setor privado estivesse em condições, garantindo assim um nível de procura doméstica necessário ao crescimento económico. Neste enquadramento, faz toda a diferença a seleção dos projetos, uma análise tecnicamente independente das suas vantagens e desvantagens, um levantamento rigoroso dos custos envolvidos e um controlo constante da sua execução, bem como total transparência fiscal. A eficiência é aqui a palavra-chave, a única forma de procurar obter crescimento, qualidade no investimento público e controlo da dívida pública.

As “curas” propostas para a tendência crescente para uma estagnação secular na economia mundial sugerem a importância de aumentar a idade da reforma e alargar os sistemas de pensões e cuidados de saúde, ainda que garantindo a sustentabilidade dos mesmos, diminuir a desigualdade e continuar a investir em níveis educacionais mais elevados.

Na Europa, sublinham a necessidade de rever as exigências colocadas em termos do rácio da dívida pública face ao PIB que é permitido de acordo com o tratado sobre estabilidade fiscal, mas não será fácil chegar aí. Vejam-se os recentes ataques á política monetária seguida pelo Banco Central Europeu por parte de um dos mais conhecidos e influentes economistas alemães (Hans-Werner Sinn), e que defende acerrimamente a necessidade de continuar a deflacionar as economias do Sul (como Portugal) de forma a aumentar a sua competitividade.

Um dos autores sublinha que a situação na Europa é mais preocupante porque a demografia é menos favorável (a previsão é de que, em 2100, o rácio dos reformados com mais de 65 anos face á população trabalhadora entre os 20 e os 64 anos seja de 57,5%, face aos 24,3% em 2000), a produtividade é mais baixa, a consolidação fiscal foi mais exigente devido ao impacto da crise, e o Banco Central Europeu demonstrou, na prática, menos capacidade interventiva do que o FED, o banco central dos Estados Unidos.

Custa aceitar a ideia de que estamos, como um todo, condenados à estagnação, entendida como um crescimento económico muito baixo e muito lento. No futuro próximo, a inovação certamente continuará a contribuir positivamente para o crescimento - exigindo não apenas o reforço da interação entre ciência e tecnologia, mas também o desenvolvimento de novos instrumentos de política económica e oportunidades de investimento.

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