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Ideias

2014-02-27 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Imaginemos uma escola como outra qualquer. Imaginemos um adolescente entre os 13 e os 16 anos. Pode ser nosso filho ou sobrinho, vizinho ou ninguém em particular. Prossigamos: o jovem frequenta a escola com alegria, aplica-se, aprende, mantem relações respeitosas com adultos e colegas. Ocasionalmente tem um destempero ou outro, mas nada que não se resolva com uma chamada de atenção ou reprimenda. Progride, e à medida que o faz, vai ficando claro o âmbito e o propósito da sua formação. É clara para ele, sobretudo, a relação intima entre o mundo infanto-juvenil da escola e o mundo adulto do trabalho. São claros para ele, ainda que em esboço, os contornos das suas aptidões e limitações, das suas ambições e frustrações. Realizar-se-á dentro da linha de vida definida? Sobreviverá algum colapso e a necessidade de redesenhar a sua identidade?
Deixemos para trás este menino ou menina da nossa eleição. A idade todavia não pesa. Nada se encontra definitivamente selado. Imaginemos outro jovem, agora em negativo. Alguém que não abarca a progressão das matérias, que não cumpre convenientemente as avaliações, culminando com percentagens ridículas, sofríveis na melhor das hipóteses; alguém cujo entusiasmo pela escola é o que advém das companhias. Na sala, poderá ser discreto ou perturbador. Terá ou não um registo de ocorrências disciplinares. Talvez até seja um daqueles meninos ou meninas de quem os pais dos alunos empenhados se queixam, por condicionarem o curso das aulas e degradarem as condições de aprendizagem dos seus rebentos. Ah! Este menino ou menina também pode ser do nosso sangue.
Eu gostaria de falar deste tema com estatísticas que não tenho. Longe da má-língua, é peculiar que em Portugal não haja estatísticas públicas, partindo do princípio que as há e que ficam no segredo dos deuses. Socorro-me de valores antigos. Há mais de uma década atrás, fazia eu um levantamento para legitimar um programa de intervenção, operava-se com taxas de insucesso escolar na ordem dos 20%. Para cima de 5 alunos por turma.
Libertemo-nos da cómoda hipocrisia de olhar para estes casos sob o prisma da indisciplina e do irregular curso das aulas. Por cada aluno que é referenciado pelo mau comportamento, que incorre em sanções disciplinares, há muitos que passam pelo sistema, discretamente infelizes, amargurados, silenciosamente à espera que um golpe de sorte os encaminhe para um futuro viável. A Escola, ou é a rampa de lançamento para a realização individual ou não é nada. Eu sei que nada se conclui no amparado espaço escolar. Insisto é na ideia que a Escola não pode assobiar para o lado como se o seu papel fosse o abecedário e a tábua de multiplicação, e mais uns quantos saberes desgarrados que a uns aproveitarão mas a outros não.
E não adianta dizer que o corpo programático pelo qual a Escola se rege é básico, fundamental, igualmente útil para todos, convindo que todos os alunos se esforcem de modo congruente para que assim o seu êxito seja proclamado. Na Escola pode coexistir Programa e não Programa. Nem a Escola nem no Programa estão imbuídos duma transcendência inelutável, nenhum deles supera a substancialidade primeira do aluno. Um ministério monolítico não está capaz de assimilar esta realidade. Ironicamente reprova.
Tem-se dito que a Psicologia vem contaminando a prática e o discurso pedagógico, pactuando com a indisciplina, ilibando o aluno em nome de hipotéticos traumas e famílias desajustadas. Não! A Psicologia não é acomodatícia. Bem pelo contrário, preconiza a transformação, a superação, visa o máximo ajustamento e a estruturação da individualidade por competição construtiva, mais do que por oposição.
A Psicologia está com o grupo e com o individuo. A Psicologia está disponível para fazer a ponte entre o indivíduo e o grupo, até naqueles casos em que o grupal aparece com a capa de um programa impessoal, desenhado geometricamente num gabinete em nome dum aluno imaterial. Mas também está disponível para desenhar o grupal no terreno, partindo de indivíduos reais, de alunos concretos, a quem nada diz o que vem de Lisboa, por adequado que isso seja para os colegas com os quais partilha os intervalos.

Há uma diversificação pedagógica que só pode ser construída a nível local, preferencialmente com a intervenção coordenadora das autoridades municipais, elas próprias responsabilizadas pela construção e implementação duma política de valorização dos recursos humanos. Um jovem inactivo é uma estatística em Lisboa, e um problema ou drama real no seu espaço imediato de vida. Um jovem que conquistou competências não previstas em nenhum programa difundido da capital, adquiridas com base num desenho local, aproveitando os recursos de proximidade, também é uma estatística em Lisboa, mas é, sobretudo, um estabilizador nesse mesmo espaço de vida diária.

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