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Pão Duro: O mendigo português dono de uma fabulosa fortuna!

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Ideias

2015-02-01 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Esta semana ficamos a saber que o risco de pobreza no nosso país continua a aumentar de uma forma preocupante, afetando já cerca de dois milhões de portugueses.
Quando um país, uma família ou um indivíduo pensa exclusivamente no fator económico a qualidade de vida sai, normalmente, afetada e, em muitos casos, irremediavelmente. Aconteceu isso aquando do Estado Novo, em Portugal, já que Salazar tinha preocupações extremas com as finanças, deixando muitos portugueses esfomeados. Acontece atualmente com muitos países, também o nosso, devido à preocupação extrema com o setor económico e financeiro.

Neste contexto, irei aqui recordar um episódio que ocorreu há cerca de oitenta anos e envolveu um português, emigrante no Brasil, dono de uma fortuna fabulosa, mas que passava os seus dias a mendigar tudo o que podia!
José Romão era um jovem, natural da freguesia de Santa Maria Maior (Covilhã), que vivia com imensas dificuldades. Deste modo, em meados da década de oitenta, do século XIX, resolveu emigrar para o Brasil à procura de uma vida melhor.
Logo que aí chegou, Romão labutou em tudo o que o fizesse ganhar dinheiro: foi carpinteiro, carregou sacos de mercadorias no cais de portos, trabalhou com mobílias, roupas… até foi condutor de elétricos!

Num dos momentos da sua intensa e diversificada atividade profissional e quando exercia, de dia, as funções de carpinteiro, Romão passou a colocar-se à entrada dos teatros, à noite, para pedir esmolas. Mesmo assim, aos domingos, ainda se ocupava a engraxar sapatos e a percorrer vários locais, onde recolhia papéis velhos que depois os vendia para ganhar mais uns trocos!
A habitação de José Romão era verdadeiramente indescritível: não tinha luz, não tinha água, não tinha móveis, dormia sobre uns trapos velhos, num verdadeiro covil!

Confidenciou, por várias vezes, nunca ter gasto um único tostão com vestuário, pois adquiria-o nos funerais, depois de pedir aos familiares do defunto as roupas que restavam deste. Pior ainda, quando entrava na sua habitação, autêntico casebre, Romão despia-se, pois não queria estragar as roupas que tanto trabalho lhe dava a angariar!

A sua alimentação era do mais subnutrido possível: baseava-se numas côdeas duras e, em muitos casos, já com bolor, que conseguia nos seus inúmeros peditórios! Deslocava-se frequentemente às padarias, para mendigar pão duro de dias anteriores.

Um dia, corria o ano de 1933, o “Pão Duro” foi atingido por uma síncope cardíaca, que lhe causou a morte imediata. Foram chamadas as autoridades brasileiras, que o identificaram, descobrindo posteriormente a verdade de José Romão: era, afinal, dono de uma avultadíssima fortuna. Descobriram, por exemplo, que tinha depositado em vários Bancos do Brasil valores em dinheiro que atingiram a quantia de dois mil contos brasileiros. Tinha ainda 695 900$000 em papéis de crédito da Dívida Pública da Prefeitura e do Estado de Minas Gerais, do Banco Mercantil, do Banco do Brasil, do Tesouro e do Brasil Imobiliário, do qual era um dos principais acionistas!

A Polícia brasileira descobriu ainda, no “covil” onde vivia Romão, vários recibos de rendas de casas, propriedade do “mendigo” português. Descobriram então que o “Pão Duro” era também dono de cinco enormes prédios, situados na importante rua do Visconde do Rio Branco!
Um episódio verdadeiramente célebre, e que foi recordado por muitos brasileiros e portugueses que conheceram o “Pão Duro”, refere-se ao relacionamento que tinha com a sua mãe e irmã.

Vivendo estas na Covilhã, na maior das misérias, e sabendo que José Romão tinha uma avultada fortuna no Brasil, resolveram escrever-lhe, pedindo a caridade do envio de uma pequena quantia de dinheiro, que as ajudasse a enfrentar as dificuldades ásperas da vida. Enviaram-lhe várias cartas, mas nunca obtiveram uma resposta. Resolveram então pedir dinheiro a familiares e amigos, para custear a viagem e deslocaram-se, então, ao Brasil ao encontro do familiar.

Quando chegaram ao Rio de Janeiro, o “Pão Duro” não as quis reconhecer como mãe e irmã, sendo necessária a intervenção mais tensa de várias pessoas, para que o homem reconhecesse e amparasse os seus familiares diretos!

No entanto, a mãe, atingida pela fome e miséria, adoeceu gravemente, havendo por isso a necessidade de chamar um médico para a examinar. Tiveram que o fazer às escondidas de José Romão, que não admitia gastar um único centavo com o médico! Como resultado, a sua própria mãe acabou por morrer à fome. Quando o médico apresentou a quantia correspondente à única consulta que tinha feito à mãe do mendigo, este reagiu drasticamente, pagando apenas o valor da consulta sob forte coação!

Passado pouco tempo aconteceu o mesmo à irmã, acabando também ela por morrer à fome!
Quando o “Pão Duro” morreu, em 1933 (ano em que foi iniciado o Estado Novo em Portugal), surgiram de imediato vários parentes em Portugal, que trataram de dividir a fortuna deste mendigo português, conhecido por “Pão Duro”, por nunca comer um pão fresco… para não gastar dinheiro!

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