Correio do Minho

Braga, terça-feira

Palhaçadas carnavalescas!

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2012-02-19 às 06h00

Carlos Pires

1. O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, anunciou no passado dia 3 de Fevereiro que este ano o Governo não iria conceder a habitual tolerância de ponto à Função Pública na terça-feira de carnaval.
Começo por referir que, na minha modesta opinião, o dia de carnaval deveria efectivamente passar a ser um dia normal de trabalho. Sejamos realistas, estamos a falar de uma “tradição” que não é verdadeiramente identitária O carnaval não é uma quadra genuinamente portuguesa, não obstante existam comemorações em alguns municípios, que mais não são do que importações (patéticas, muitas das vezes!) do que se faz no Brasil. Contudo, admito, onde houver especial interesse económico nas festividades, as respectivas autarquias poderão optar por dar “livre trânsito” aos seus funcionários.
É certo que em diversos sectores, como por exemplo a banca, o gozo do dia de carnaval está consagrado nos acordos colectivos. Por outro lado, no ensino, o próprio calendário escolar prevê paragem da carga lectiva. Porquanto, goste-se ou não, haja fundamento ou não, forçoso é concluir que este sempre foi um dia que as pessoas, na sua generalidade, se habituaram a ver como um verdadeiro dia feriado.
Posto isto, parece-me, desde logo, que o anúncio, a pouco menos de três semanas da efeméride, pecou por tardio, sendo que o executivo poderia ter atenuado bastante os efeitos de tal opção se a desse a conhecer há mais tempo. Atenuaria certamente os prejuízos que o sector do turismo irá suportar com esta decisão, conhecida quando os investimentos com a animação e organização do carnaval estão feitos em algumas regiões. Permitiria, por outro lado, que muitos pais pudessem arranjar atempadamente uma solução para os seus filhos, que estarão sem escola naqueles dias. Por fim, evitaria os notórios danos de imagem provocados no próprio Governo.

2. Contudo, a “palhaçada” estendeu-se, quanto a mim, muito para além do erro de ‘timing’ no anúncio da medida pelo Governo. Refiro-me às posições assumidas por alguns quadrantes e agentes da política nacional, passando a elencar alguns exemplos: i) o coordenador da Frente Sindical da Administração Pública, Nobre dos Santos, exortou os funcionários públicos a irem mascarados para o trabalho no dia de Carnaval; ii) António Capucho, ex-presidente da Câmara de Cascais, bem como o presidente da edilidade de Vila do Conde, referiram considerar disparatada a medida que impede as pessoas de terem um dia por ano para manifestarem a sua alegria e a sua descontracção; iii) a Câmara de Torres Vedras, que dá tolerância de ponto na segunda e na terça-feira de carnaval, revelou que quem entrar nas ruas do corso para ir a repartições públicas vai pagar como se fosse para a festa, exortando a que as mesmas não tenham atendimento ao público, alegando que o ruído prejudicará os serviços.
Há um grande vício no argumentário destes actores (e de muitos outros que, com toda a certeza, os seguem na crítica ao Governo). É o vício da incoerência. Que sentido faz andar a cortar feriados civis e religiosos, alguns deles de grande significado histórico, a pedir mais trabalho às pessoas, a flexibilizar o mercado laboral para tentar criar mais emprego para, a seguir, dar tolerância de ponto a uma celebração que acontece a uma terça-feira? Qual a razão para a festa não se deslocar para o fim-de-semana anterior? Que sentido faz exigir um dia de festa e alegria forçadas se os momentos que vivemos são antes de exigência e de responsabilidade?
É verdade que Passos Coelho cometeu um erro, devia ter avisado mais cedo, mas isso não deve iludir o essencial: o esforço reclamado ao país não é compatível com excepções como aquelas que muitos políticos teimam em apregoar. Eu gostaria que houvesse muitos mais feriados, mas nós estamos a atravessar uma grave crise ou não estamos? Custa encarar a triste verdade, mas a solução não está em “enterrarmos a cabeça no chão”, fingindo que tudo está bem, que tudo é uma festa. Os tempos que vivemos são de verdadeira “emergência nacional”, o país precisa de cumprir um programa de ajuda externa, o país precisa de trabalhar ainda mais para sair da situação em que está e para relançar a economia e o emprego. Esse deverá ser o propósito de todos, com a exigida honestidade intelectual, sem demagogia, sem ‘palhaçadas’.

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