Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Palermómetro

Um ciclo que se abre

Escreve quem sabe

2017-02-12 às 06h00

José Manuel Cruz

Não sei por onde lhe pegue, mas ando zonzo. E tudo por causa da provada interferência do Kremlin nas eleições norte-americanas, da hipotética contaminação do sufrágio holandês, da previsível viciação do embate presidencial em França… (desculpem, tive de parar, para debelar uma náusea). Ó tempos saudosos! Ó avanços tecnológicos, que traidores e espiões passavam à socapa para o Lubyanka! Pois não era no ocidente que os soviéticos se abasteciam de novidades?
Permitam-me que acredite, com a penúltima fibra da minha alma, que seja possível falsificar um resultado eleitoral. Que desconfie, então, que uma contagem final espelhe tintim por tintim o voto expresso, que creia piamente que um mago cirílico possua electrónica poção que bites ponha a girar à maluca, contrafazendo octetos a bel-prazer do czar Vladimir I, O Pirata. E é arte que uns tenham e outros desconheçam?

Vivem, os americanos, sob a falácia da perfeição própria, tal que nenhuma desgraça lhes possa vir senão do exterior - ele é o terrorista que é islâmico, e, sendo-o, só oriundo de estado que não milite entre aliados; ele é o refinamento do jugo externo, não já pela submissão à bota cardada e à kalashnikov, mas por perversa contaminação de circuitos integrados. Do aço e da farda ao silicone, persiste a América em infantil “não fui eu, foi ele” e querem que cantemos pela mesma partitura. Bom Deus! Até onde estamos disposto a ir em palermice?

Flores que se cheirem, os russos? Não, nem pouco mais ou menos! E daí? Movem-se na mesma selva de interesses, tão-só. Sustentarão que posicionam peças em jogo de ataque, mas como defesa avançada. Acredita quem quer, mas não é senão por embrutecimento intelectual que persistimos na destilação de malefícios de velho diabo. Encravamos em guiões de cinema: em vilões de vida dupla que educam um filho para atingir a alta magistratura americana; em magos cibernéticos com o condão de desencadear catástrofes e corromper o sacrossanto da democracia - O VOTO.

Já nem a insurreição do voto é legítima. Como ganhar pode, alguém que tenha ninho na grande esquerda ou na grande direita? Como ganhar pode, alguém que reduza a cacos o bom senso, ainda que os oficiantes do mesmo bom senso tenham sacrificado a classe média e o operariado nos altares da alta finança e do mercado planetário?

Enterre-se o VOTO, ente doravante maldito, contaminado com coliformes fecais. Afoguem-se as eleições em cloro activo e recubra-se o despojo com toneladas de cal viva. Banam-se as eleições, porque melhor se recupera a monarquia e o direito divino. Ah democracia, que bem vais!
E já de pouco valia, ele, o voto! Antes, nesses estios de guerra fria, perderíamos a identidade em favor de doutrina espúria, se acordássemos com um antecessor do T-14 Armata sob a sacada da nossa janela. Hoje, arriscamos perder o nosso beatífico modo de estar, se depositarmos voto em eleição onde pontifique fantoche talhado em bétula siberiana. O Trump é um zombie, que de tão besta só por chip moscovita poderia ter debutado na Casa Branca. A Le Pen é uma vendida, pois se de Banco próximo ao Kremlin recebe soldos.

Ah russos de má-pêlo!!! Antes mentores de pérfidas esquerdas, hoje patronos de descerebrados e pseudo-fascistas. E nós, ingénuos e bondosos democratas, e nós que de Eva não somos filhos, pois que isentos de todo o pecado original. Agonio, enfim. Resta-me registar a diversificação das alavancas mefistofélicas dos bárbaros do Grande Leste. Estou a pontos de soltar um palavrão, mas vou ler Pushkin, Turgueniev, e Gogol, e Tchékhov, e Lermontov - no original. Descansarei em paz. Adeus.

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