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Voz aos Escritores

2019-10-25 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

- Mãe, vens-me contar uma estória?
- Claro que sim.
As noites são sempre um palco para outras vozes, para nos apropriarmos delas e recriarmos ambientes, tiques, pronúncias. Damos dimensões às palavras, paisagens aos sentidos, relevos às ações. Cenários criados a gosto.
Libertamos os pesos do dia, peneiramos existências, guardamos importâncias em caixas, gavetas, armários ou caves mais obscuras. Um jogo de dialética entre o bem e o mal, ainda que a reter tanto de um como de outro, pelo valor que têm para a nossa convivência e sobrevivência.
As rotinas compõem-se como uma pauta musical. Ritmo e melodia. Aulas, materiais, fichas, correções. Reflexões e elaborações. Cadência. E depois os tempos. Aqueles alunos que trazemos connosco até à terra dos sonhos. Se por um lado não nascemos todos com as mesmas capacidades, dons ou competências – e ainda bem! -, por outro lado o que poderão alcançar, num mundo altamente competitivo e individualizado, com o que lhes coube em sorte?

E a sorte que uns têm pelo contexto familiar, pais e mães atentos, decididos e incansáveis, com o que podem contar os outros? A escola enquanto ponte para o mundo exterior, janela para um horizonte de enriquecimento, preenchimento e encantamentos, quantas vezes não falha esta premissa e torna-se antes num enfatizar de diferenças e inferioridades?
É com isto que a grande maioria dos professores se debate dia-a-dia. Com acrobacias e malabarismos de transmissões de informação e conhecimento, acrescentos que poderão fazer a diferença nas vidas destes alunos. Ilusionismos para que se possam construir relações mais humanas, posturas mais corretas, atitudes mais honradas.
Levam estas preocupações para o seu espaço pessoal e familiar, que não poucas vezes se queixa do excesso de zelo. Vivem por interposta criança as angústias que lhe vê estampadas nos olhos, ainda que sejam só as que irá ter daqui a uns anos. Desesperam enquanto não conseguem sentir o clique que o brilho nos olhos espelha, como aquele momento em que algo dentro dela se abriu, se transformou, se acrescentou como se de uma clarividência qualquer se tratasse.

E aí, corpo e mente inundam-se de uma satisfação indescritível. Uma compensação por todo o tempo e energia despendidos com o assunto, com os alunos. Esta é o vício que traz os professores perdidos por esta coisa estranha que é a educação, como se de um grupo de toxicodependentes se tratasse. O escudo e armadura que os (nos) fazem resistir a toda a erosão que acontece diariamente, desde os pais ao Ministério da Educação. Porque há uma verdade com os alunos que só quem está ali, na sala de aula, sabe e reconhece.
Sim, nem todos os professores são assim. E permitam-me o pessimismo, mas a julgar pela quantidade de alunos universitários que querem seguir a carreira docente, com pouca ou nenhuma preparação prática, cada vez serão menos graças à degeneração da sua imagem e conceção.

Se há casos em que os profissionais não correspondem ao que a profissão exige, como os há em todas as profissões, que sejam tomadas as medidas legais. Sem linchamentos públicos ou privados vazios de contexto. Numa semana em que um professor agrediu um aluno, em que uma aluna e o seu pai agrediram uma assistente profissional e dois professores, em que uma professora foi agredida com uma cabeçada por um aluno, faz todo o sentido fazer esta reflexão.
Por uma escola que seja palco de conquistas e não de competições. Que seja terra de horizontes elevados e não de chão batido.
Que seja uma arena de conhecimento e humanização, ao invés de uma selva de vão combate.

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