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Palavras cruzadas e encriptação linguística

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Palavras cruzadas e encriptação linguística

Voz aos Escritores

2021-02-26 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Consideradas um jogo, as palavras cruzadas são, para mim, um excelente passatempo. A ideia é formar palavras, lidas horizontal ou verticalmente, deduzidas de sinónimos, definições ou outras sugestões. Dependendo da raridade das palavras a inscrever nos quadrados, este passatempo pode ser muito difícil, e exigir profundos conhecimentos culturais e linguísticos. Considero-o, aliás, um dos passatempos mais valiosos, razão por que deveria ser mais utilizado nas escolas, principalmente na disciplina de Língua Portuguesa.
Partindo da ideia criptográfica de Edgar Alan Poe, propus em tempos, em aulas de Português e de Linguística, resolução de textos encriptados e de palavras cruzadas. Para o primeiro exemplo, a ideia era simples: escrito um texto, traduzia-se em tipo «symbol», ou similar, e propunha-se a sua decifração. Recordo a surpresa de alguns face a tal proposta, mas também o entusiasmo de outros que, usando as mais diversas estratégias (que deveriam registar numa folha à parte), encontravam rapidamente a solução. O exercício era, evidentemente, apenas um pretexto. O objetivo era o registo das estratégias e o subsequente debate sobre a importância do conhecimento linguístico, lexical, sintático e semântico, interiorizado por todos.

Na verdade, embora poucos pensem nisso, todos temos um conhecimento «estatístico» de aspetos léxico-sintáticos que conformam a nossa língua. Partindo do princípio de que uma palavra se identifica, na escrita, por ter um espaço antes e depois, pensemos, por exemplo, em palavras com duas letras. Em português, há algumas possibilidades: os, as, de (mais compostos da, do…), em (mais compostos na, no), e eventualmente mais alguma. Quer dizer: olhando apenas para a forma da palavra, a probabilidade de eu acertar em algo encriptado é muito alta. No caso do artigo definido os, as, porque plurais, a identificação do «s» final estará facilitada pela lei do acordo: se a palavra seguinte terminar com o mesmo símbolo, provavelmente será um «s», o que se vê no sintagma os livros. Assumindo-se ainda que as vogais «a» e «o» são estatisticamente as mais recorrentes em português, facilmente se confirmaria o género do artigo e de palavras sequentes, que se regem pelas leis do acordo. Por dedução lógica, anulada a identificação de género e número, restariam as preposições de e em. Pelo mesmo tipo de probabilidade estatística, a vogal «e» é mais recorrente do que as vogais «i» e «u», razão por que chegaríamos fácil e rapidamente ao resultado.

Outro fator relevante a considerar na descodificação de elementos encriptados é o relacionamento sintagmático, isto é, o lugar que cada grupo ocupa na linha sintagmática. Sabendo-se que, estatisticamente, a organização frásica do português é de tipo SVO (Sujeito-Verbo-Objeto), estará facilitada, à partida, a identificação da classe morfológica a que pertence cada bloco simbólico.
Há, evidentemente, uma multiplicidade de estratégias a considerar. O que é relevante, neste tipo de exercício lógico-dedutivo, é a mobilização de conhecimentos linguísticos e metalinguísticos, interiorizados, ou, eventualmente, inatos.

No caso das palavras cruzadas, a minha estratégia de resolução de problemas, e a de outros, com certeza, consiste na identificação dos elementos mais fáceis: género, número, terminação verbal. Se a definição ou o sinónimo apresentados apontam um plural, ou um feminino, lá se regista um «a», ou um «s»; se apresentam forma infinitiva, regista-se um «r»; se forma imperfeita, regista-se «ia», ou «ava», etc, consoante a informação dada. Com estas pequenas ajudas, a identificação das palavras fica sobremaneira facilitada, o passatempo torna-se divertido a aprendizagem lexical altamente potenciada.
Há muitas formas de conduzir os jovens à aquisição vocabular, à mobilização de conhecimentos, lexicais ou sintáticos, e à resolução de problemas, que culmina no domínio semântico, na compreensão de tudo o que é dito ou escrito. A leitura é, neste aspeto, fundamental. Estas estratégias lúdicas podem, e de que maneira, ajudar. Porque não usá-las? Conduzamos os jovens a gostar de palavras cruzadas!

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