Correio do Minho

Braga, quarta-feira

- +

Os votos e os galopins eleitorais

COVID-19: Quem testar? Que testes usar?

Ideias

2014-05-26 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

As eleições para o Parlamento Europeu, que se realizaram ontem no nosso país, revelaram uma elevada taxa de abstenção, que só causou admiração àqueles que andam distraídos com a nossa sociedade.
Apesar de muitos portugueses não demonstrarem grande preocupação relativamente às questões políticas, não faltam, infelizmente, muitos que passam grande parte do seu tempo a delinear estratégias e tácticas políticas, muitas vezes com o único objectivo de se servirem ou de pagarem favores a pessoas do seu círculo de interesses.

Verifica-se esta realidade em muitas instituições públicas, as quais deveriam afirmar-se pelos valores do respeito, da dedicação, da participação e da democracia, preparando com estes valores e com estas atitudes as gerações que nos substituirão, num futuro mais ou menos próximo.

Como este espaço não era suficiente para expor aqui os vários exemplos daqueles que são possuidores destas características, e que nos rodeiam, vou aqui recordar, apenas, o caso caricato do padre de Adaúfe, que em vez de se dedicar aos seus paroquianos, passava mais tempo a engendrar estratégias políticas, a maior parte das quais de duvidosa utilidade pública.
O padre Menezes, pároco desta freguesia em 1887/1888, era frequentemente criticado por não se dedicar convenientemente ao seu labor sacerdotal, passando muito do seu tempo a pensar na política.

A maior parte das tarefas religiosas não eram efectuadas pelo padre Menezes. A sua única tarefa limitava-se à realização de umas missas dominicais, ou então missas correspondentes a dias santificados, mas sempre realizadas à pressa. Nesta freguesia “não há novenas, mez de Maria, do Rosario, Clamores, Benção do Santissimo aos domingos e nem ao menos se leram os sacramentos de noute a quem não pode esperar pelo dia seguinte…”. (1)

Esta situação preocupava, e de que maneira, os paroquianos de Adaúfe, uma vez que tinham morrido três pessoas, de noite, sem que o pároco lá fosse ministrar os últimos sacramentos.
O problema é que o padre Menezes era de uma grande vaidade e de uma “petulância inaudita, chegando a dizer mal de todos os párocos das freguezias circum visinhas, a quem chama de parachácos, não se lembrando que qualquer deles lhe poderia servir de modelo”. (1)

Muitos habitantes de Adaúfe queixavam-se desta situação, afirmando que o seu pároco deveria seguir o exemplo dos seus colegas vizinhos, que faziam o seu trabalho pastoral com dedicação e simplicidade. Mais grave era verificarem que o padre Menezes, a quem rotulavam de “um refinado galopim”, apenas se lembrava que era padre para receber as benesses a que tinha direito, e mesmo assim aproveitava-as para criticar a freguesia e os seus habitantes.

Os paroquianos de Adaúfe desconfiavam do seu pároco, uma vez que ele dedicava-se mais à política do que à religião. Aliás, as estantes da sua casa praticamente não tinham livros religiosos, tendo apenas “uns códigos administrativos e uns folhetos das posturas camarárias” (1).

Houve o caso em que um representante de uma família foi chamar o padre Menezes para “acudir” a um seu familiar, que se encontrava a morrer, e este não lhe abriu a porta da residência paroquial nem sequer a porta da igreja! Até na doutrina, o padre aproveitava o momento para fazer campanhas político-partidárias. Mais grave ainda era incumbir as mulheres para exercerem influência política sobre os seus maridos!

Com frequência, as pessoas afirmavam que um “parocho d’esta laia, longe de fazer bem à freguesia está a fazer mal”! (Id.). Por isso, os paroquianos de Adaúfe pediam com frequência às entidades respectivas para que estas fizessem justiça ao seu pároco! E essa justiça passava pela sua substituição da paróquia.

Na altura, tal como agora, todos nós conhecemos pessoas que passam muito do seu tempo nestas estratégias, tendo como único objectivo protegerem-se e protegerem os que os rodeiam. São os galopins eleitorais!

(1) - Jornal ‘O Regenerador’, de 1 de Janeiro de 1888.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho