Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Os velhos do Restelo

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2010-06-11 às 06h00

Margarida Proença

Em Portugal, tudo o que envolve qualquer tipo de mudança é complicado. Mesmo se até então se criticava, o modo como se costuma fazer, os procedimentos que habitualmente se seguem, o que se produz, por aí fora, é sempre melhor do que qualquer possível alternativa.

No dia da partida da primeira expedição para a Índia “um velho de aspecto venerando/que ficava nas praias entre a gente/postos em nós os olhos meneando/três vezes a cabeça descontente” (Camões, canto IV dos Lusíadas”) questionava - “ a que novos desastres determinas de levar este reino e estas gentes?/ que perigos, que mortes lhes destinas/debaixo dalgum nome preminente? ”. O velho do Restelo está talvez nos nossos genes, não sei. Seja o que for que se faça, é criticado.

Fiz a escola primária numa aldeia, mas onde haveria talvez quatro. Hoje uma vila, já na altura era uma aldeia importante, com uma população superior a 5.000 pessoas, e uma economia local diversificada, mas baseada na indústria. Por meados das décadas de 50 e 60, não havia emigração, e os níveis de rendimento médio da população eram claramente mais elevados do que a média nacional.

As escolas estavam divididas, claro; uma delas era feminina, as outras três masculinas. Nada de misturas. A coisa era complicada, na altura; havia um exame na 3ª classe (hoje diz-se 3º ano) que um número significativo de crianças fazia, e depois saía de vez. No final do ciclo havia dois exames. O da 4ª classe era feito numa escola na sede do distrito, onde se tinham de demonstrar conhecimentos elementares em escrita e aritmética, em história e geografia (os apeadeiros dos caminhos de ferro, os ribeiros, os cognomes dos reis….) mas também em coisas como pregar um botão.

Mas as crianças que continuariam a estudar, tinham ainda que fazer o exame de admissão, no liceu ou nas escolas industriais ou comerciais, conforme o caso. O exame de admissão era mais sério, e por isso foi decidido concentrar numa única escola, numa única turma, numa das escolas masculinas claro, todos os alunos nesse caso. Com um professor escolhido a dedo, e um programa mais extenso, estavam incluídas as 5 meninas que se propunham apresentar-se ao exame de admissão. Cinco. Nem todas o chegaram a fazer. E nenhuma delas está hoje a trabalhar, ou a viver, sequer na zona.

Na altura, não achei piada nenhuma mudar de escola, e muito menos ir lá para o meio de tantos rapazes que não conhecia de lado nenhum. Mas a preocupação, ao tempo, era óbvia - centralizar recursos para garantir a qualidade da formação, até porque os alunos vinham da elite local... Nessa turma, tínhamos melhores mapas e uma espécie de laboratório que era uma verdadeira novidade.

Por essa altura, na bem vizinha Espanha, o quadro escolar modificava-se. A escola rural, dos anos trinta, quarenta, até meados da década de cinquenta, franquista, estava marcada por profundas debilidades. Sem boas condições materiais ou pedagógicas, com professores esgotados e sem quadros remuneratórios ou estatuto social significativos, isolados, e com um sistema escolar baseado na reprodução dos quadros mentais pré-existentes, a Espanha não conseguia ultrapassar uma taxa de analfabetismo significativa. Como diz Hernandez Diáz (2008) era considerada como “a reserva espiritual da pátria, o símbolo da Espanha mais autêntica, na lógica argumentativa dos vencedores representantes da administração franquista” , num modelo técnico e pedagógico que reproduzia as classes sociais e mantinha o acesso ao conhecimento restrito - e intacto.

No entanto, em Espanha, desde 1959, o quadro existente começou a alterar-se de uma forma cada vez mais significativa, em resultado também da crescente migração dos campos para as cidades. A ideia da escola minúscula, com meia dúzia de alunos, que se deve manter nas aldeias mais remotas, foi progressivamente abandonada. E com o tempo, a Espanha de que me lembro quando era bem criança, que andava de alpergatas e onde quase não se viam automóveis, bem mais pobre que Portugal , desapareceu já há muito.

Na Irlanda, em 1996, acabaram com as propinas nas universidades; um artigo muito recente (Denny, Maio 2010) mostra que isso não resultou absolutamente em nenhuma melhoria em termos da igualdade no acesso á universidade. Os gradientes sócio-económicos da educação universitária são explicados por razões que começam muito tempo antes, ao nível do ensino básico.

Não importa para nada que cada pequena aldeia, cada lugar por mais remoto que seja, tenha uma escola, senão para reproduzir a sociedade pré-existente. O que é fundamental, e o que devemos às crianças, é proporcionar-lhes escolas com boas condições materiais e pedagógicas, com professores motivados até porque não estão isolados, com programas mais exigentes e maior oferta formativa. A todas as crianças.

Tenho ouvido o argumento da desertificação das aldeias mais pequenas. Tenho a maior dificuldade em perceber o que significa; será que o objectivo é que a criança, ao fazer o 4º ano, se mantenha lá, e não vá estudar mais? Mas então, vamos garantir que todas as aldeias, ou lugares, devem ter ensino básico de 2º e 3º ciclo para não saírem? E porque não universidade em cada povoação com mais de 500 habitantes? Ou pelo contrário, significa que reservamos para as zonas rurais níveis de escolaridade baixos, e logo as condenamos necessariamente a um definhar económico e social? Não será mais importante enquadrar por bons transportes a deslocação das crianças para as escolas, e o retorno a casa, tal como acontece em muitos outros países?
Em Portugal discute-se de mais - e criticando-se de mais, faz-se sempre mais tarde.

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