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Os velhos desafios da mobilidade em Braga: uma história

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Os velhos desafios da mobilidade em Braga: uma história

Ideias

2023-07-02 às 06h00

Mário Meireles Mário Meireles

A cidade constantemente habitável até ao dia de hoje foi fundada há 11 mil anos. Recuar à fundação de Braga, há cerca de 2039 anos, ao tempo dos romanos, para falar da mobilidade que acontecia entre muros, na zona da cividade, estaríamos a falar de deslocações a pé e a cavalo, ou para lá dos muros, pelas Vias Romanas que partiam do então centro da cidade, ali junto ao ainda quartel dos Bombeiros Voluntários de Braga, com recurso a carroças.
Mais tarde a Arcada servia para abrigar os jornaleiros e caixeiros viajantes, que ali guardavam o seu cavalo abrigado da chuva.
O centenário funicular do Bom Jesus do Monte, inaugurado  a 25 de Março de 1882, único a funcionar a água, servia para vencer a encosta do Bom Jesus do Monte.
O carro americano, puxado a mulas, chegou a ter duas linhas: Uma no eixo Estação - Rua do Souto - Avenida Central - Rua de São Victor - Rua D. Pedro V - Bom Jesus, e outra que ia pela Rua dos Capelistas, Campo da Vinha e Campo das Hortas. Ambas passavam em frente à Arcada, que era então o centro da cidade de Braga. Este operou entre 1877 até 1914.
Depois, durante um período, a linha que ligava ao Bom Jesus viu os animais serem substituídos por tração a vapor, devido à grande procura precisou de aumentar a sua oferta. Uma locomotiva a vapor passou a puxar as carruagens. Mas as muitas faulhas, o barulho e a trepidação fizeram com que a Câmara Municipal rapidamente ordenasse que a operação voltasse a ser efetuada com animais.
Em 1914 a cidade passa a ter elétricos a operar sobre carris. Braga, que havia sido a primeira cidade a ter eletricidade, estreava-se assim nos elétricos. Nesta altura a cidade tinha 30 mil habitantes e os elétricos passavam de 10 em 10 minutos. Hoje com mais de 150 mil habitantes, não temos um sistema de transportes públicos com esta frequência nem a operar num canal dedicado, como naquela altura.
Em 1963 os elétricos acabam na cidade e passamos a ter Troleicarros até 1979.
Desde aí a cidade apenas passa a ter uma rede de autocarros, primeiro a SOTUBE privada, depois serviços municipalizados, e entretanto Empresa Municipal, já sob o nome de TUB - Transportes Urbanos de Braga.
Os TUB tiveram veículos a diesel desde a sua origem, e em 2000 apostaram nos veículos a gás, quando esta tecnologia aparentava ser a solução. Em 2017 foram os primeiros a optar pela tração 100% elétrica em Portugal. Estranhamente, depois de terem abatido toda a frota a gás, em 2022 voltam a apostar no gás, construindo uma nova estação para alguns novos autocarros ineficientes, que a prazo terão de sair de cena. Uma opção política cara.
Apesar de termos os TUB como a marca que identifica o concelho de Braga, porque sabemos que chegamos ao concelho de Braga quando vemos um autocarro ou uma paragem dos TUB, nem que seja um postalete, a verdade é que a cidade, o Município, trata mal a sua Empresa Municipal de Mobilidade.
Retiraram os TUB de uma rota histórica como é o eixo da Rua Nova de Santa Cruz, levando a perdas consideráveis de passageiros nessas linhas. Ao longo de dez anos a gestora do espaço público retirou prioridade aos TUB na Rua do Raio, deu dois abrigos novos aos TUB, postaletes novos, e… nada mais. Em todas as regenerações urbanas de Avenidas que fez foi incapaz de dar prioridade aos transportes públicos da cidade, nem um metro de via bus. Não se pode estar à espera 30 minutos por um autocarro da Linha 74 que é suposto passar de 15 em 15 minutos. Sem a vantagem de circulação e garantia de cumprimento de horário, sem fiabilidade na oferta, ninguém passa a usar o transporte público, nem que seja de borla. Só mesmo quem não tem outra opção.
Assim, desde 2012 que surge algo novo no léxico da nossa cidade. Um estrangeirismo, algo estranho, chamado BRT. O Bus Rapid Transit que ia transformar “A Nossa Avenida”. O BRT - Bus Rapid Transit foi a opção política deste Presidente de Câmara, após abraçar a ideia trazida em 2012 para Braga por Baptista da Costa. Ao longo de anos vimos sair notícias, suplementos, mapas, explicações do BRT. Nos transportes públicos o traçado dos mesmos é sempre uma opção política, e essa estava tomada e anunciada. Aliás, a mesma está descrita no Plano Diretor Municipal, onde passou a existir um ponto dedicado a Linhas Regrantes de Alta Capacidade, para introduzir o BRT e por onde este ia passar.
Foram elaborados textos para a CCDR-N, para candidaturas do Quadrilátero, para o Presidente da Câmara e para o Governo. Foram efetuadas tertúlias, debates, discussões públicas e, inclusivé, um projeto para uma primeira fase de introdução do BRT na Rodovia, para minimizar o impacto da transformação da mesma.
Até esta altura sabia-se que o BRT iria regenerar, em toda a sua extensão e perfil, as avenidas por onde ia passar, e não se limitaria a ser a construção do canal para o transporte público. Era requalificação de passeios, de arvoredo urbano, introdução de ciclovias para construção da rede ciclável, e canal dedicado ao transporte público. Ia haver prioridade em todos os semáforos, o sistema seria aberto (a validação seria tipo metro, na estação) e algumas linhas dos TUB iriam usar o canal do BRT (para as pessoas não terem que trocar 3 vezes de autocarro). Estava tudo pronto para avançar. Mas de repente, tudo mudou. 
Todo este trabalho descrito até aqui foi deitado ao lixo, as pessoas envolvidas em todo o processo tratadas sem qualquer respeito ou honra e o que é apresentado ao Governo para o PRR é um novo mapa, uma nova opção política inexplicada. Afinal de contas, como vai ser o BRT de Braga? A resposta pode ser pior que “Não sabemos”: Ninguém sabe. Daqui a 15 dias há mais.

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