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Braga, segunda-feira

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Os terroristas e o Corrécio de Braga

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2015-11-22 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A Europa assiste, nestes últimos dias, a um ambiente de grande ansiedade, devido aos atentados terroristas que ocorreram há pouco mais de uma semana, em Paris.
Nestes últimos dias foram vários os momentos de tensão e medo, que levaram ao cancelamento de jogos de futebol envolvendo algumas das principais seleções europeias (Bélgica-Espanha e Alemanha-Holanda), espetáculos musicais, ameaças de bombas em aviões e restrição à circulação das pessoas. O ambiente que neste fim de semana se vive em Bruxelas, com a cidade em alerta vermelho devido à ameaça de ataque terrorista, é o mais recente exemplo.

Este ambiente de receio que se generalizou na Europa faz lembrar, embora centrado, evidentemente, apenas no contexto da nossa região, os acontecimentos que ocorreram em Braga, há 40 anos, quando uns “corrécios” aqui circulavam e cometeram vários ataques.
Muitos, provavelmente, ainda se recordarão desse ambiente tenso que se viveu aqui no pós 25 de abril de 1974, altura em que Braga foi fustigada por uma onda de violência e de assaltos.

Ficaram célebres as ocupações de casas abandonadas; os assaltos a automóveis, mesmo no centro da cidade; os ataques a lojas, mesmo aquelas que se situavam nas ruas mais centrais de Braga; os assaltos e ameaças que aqui ocorriam; os assaltos a associações culturais; os assaltos a sedes partidárias ou a sedes sindicais.

O Verão Quente de 1975 teve aqui um epicentro muito concreto, um autêntico “Verão Quente à moda de Braga”. Aqui, tudo foi vivido de forma bem mais intensa e até assustadora do que noutros locais do país devido, também, à força que a Igreja bracarense detinha nas mentalidades e na divulgação de ideais político-religiosos que se tornaram, então, focos de enorme tensão.

Foi neste contexto político, religioso e social, que se destacou Eduardo da Costa Oliveira, um bracarense que residida no Bairro Araújo Caranda (S. Lázaro). Durante os meses que se seguiram ao período conturbado do Verão Quente de 1975, e que se prolongaram por quase todo o ano de 1976, Eduardo da Costa Oliveira foi mentor (em alguns casos) e autor (em muitos) de assaltos, ameaças e agressões a várias pessoas de Braga. A forma como abordava, intimidava e assaltava os bracarenses era de tal forma irrepreensível, que o seu nome depressa se espalhou por toda esta região. “O Corrécio” foi a denominação popular que lhe fui imputada!

Quem quisesse assustar alguém bastava dizer que conhecia o “Corrécio de Braga”, para logo conseguir os seus objetivos com mais facilidade.
A onda de assaltos que se verificou nesta região tinha, em muitos casos, a autoria ou a conivência do “Corrécio de Braga”! A sua envolvência era de tal ordem, que acabou por ser preso. Como medida de segurança, enquanto aguardava julgamento no Tribunal Militar do Porto, o “Corrécio” ficou detido na prisão de Custóias.

A sentença aplicada a Eduardo da Costa Oliveira foi lida na tarde do dia 13 de outubro de 1976, no Tribunal Militar do Porto. Nessa sentença, o Tribunal condenou-o a uma pena de prisão de dois anos e quatro meses. Contudo, “Corrécio de Braga” conseguiu, junto das instâncias judiciais, a anulação desta sentença.

Enquanto aguardava pelo novo julgamento, Eduardo da Costa Oliveira conseguiu fugir da polícia, no momento exato em que o levaram ao hospital de Santo António, no Porto, para ser radiografado! Perseguido pela Polícia de Segurança Pública, acabou por ser detido no jardim do Carregal, freguesia de Miragaia, no Porto.

Presente de novo ao juiz do Tribunal Militar do Porto, no dia 30 de março de 1977, para que fosse lida nova sentença, o “Corrécio de Braga” conseguiu, mais uma vez, iludir todas as forças policiais presentes, quando apenas faltava ouvir a sentença! Depois de ter fugido do Tribunal, conseguiu assaltar um automóvel (um Fiat de cor azul), e desaparecer sem deixar qualquer rasto!

Perante tão caricata situação, o Juiz acabou mesmo por ler a sentença, apesar da ausência do réu, confirmando a pena que tinha sido aplicada em outubro do ano anterior.
Depois desta pena, e já na década de oitenta, Eduardo da Costa Oliveira formou um autêntico exército, no qual fazia parte um seu irmão, e continuou a espalhar o medo e o terror por Braga, sendo o responsável por vários assaltos que nesta região ocorreram.

Num momento em que o mundo vive sobressaltado pelos ataques, e ameaças de ataques terroristas, creio ser oportuno recordar esse período de verdadeiro terror que Braga viveu, há 40 anos. Foi nessa altura que Eduardo da Costa Oliveira, o “Corrécio de Braga”, desempenhou um importante papel!

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