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Os talassas de Barcelos

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Ideias

2011-10-03 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Os primeiros anos da República em Portugal ficaram marcados por grande instabilidade. Nos meses que se seguiram ao fim da Monarquia, ocorreram manifestações a favor do novo regime, um pouco por todo o país. O Minho foi uma das regiões onde essas revoltas se fizeram sentir com grande intensidade.
Das várias revoltas então ocorridas vou recordar uma, que ocorreu em Barcelos, e que se tornou célebre pelo contexto em que aconteceu.

No dia 25 de Junho de 1912 o correspondente do jornal ‘A Pátria’, em Barcelos, escreveu aí um artigo onde criticava alguns militares do concelho. Quase uma semana depois (30 de Junho, um sábado, à 20 horas), o tenente José Augusto Mancellos cruzou-se, na rua D. António Barroso, com esse correspondente do jornal, que se encontrava acompanhado por um irmão e mais dois amigos.

Nesse instante, o militar questionou o correspondente do jornal, resultando daí um conjunto de discussões e agressões, tendo o militar sido vítima de uma bengalada na cabeça, desferida por Avelino, irmão do autor do texto. Nesse instante, outro soldado aproximou-se do local do pugilato, tendo o correspondente do jornal puxado de imediato de uma arma que trazia consigo.

Circulou, nos meios de comunicação da época, uma outra versão destes acontecimentos. Segundo o jornal a ‘Nação’, de 2 de Julho de 1912, o que provocou toda esta confusão foi um insulto que um oficial de Barcelos recebeu, quando decorria nesta então vila a primeira comunhão da sua filha, numa cerimónia presidida pelo Bispo do Porto. O oficial foi insultado, tendo outros militares presentes acorrido em sua defesa. De qualquer forma, a revolta foi aumentando a um ritmo que se tornou assustador.

A confusão foi crescendo, uma vez que os militares que se encontravam perto dessa rua compareceram para acudir ao seu tenente, tendo então o administrador do concelho de Barcelos, António Albino Marques de Azevedo, conseguido apaziguar os acontecimentos, através da calma que conseguiu incutir nos militares.

Quando todos pensavam que o problema tinha ficado por aí, eis que, por volta da meia-noite, um grupo de cerca de 60 indivíduos resolveu subir a rua D. António Barroso, fazendo muito barulho, gritando ruidosos vivas “à Monarquia” e, em sentido oposto, gritando ferozmente contra a República.

Perante este cenário de rebelião, o administrador do concelho resolveu ir ao encontro destes revoltosos, tentando convencê-los a desistir dessa manifestação. Como estes não desistiram, resolveu, com o apoio de oficiais que se encontravam junto dele, dar ordem de prisão a vários indivíduos, nomeadamente ao tamanqueiro Manuel da Cunha, e a ‘O Batata’, um sapateiro.

Quando estes dois presos foram encaminhados para a cadeia, a multidão começou a aumentar, chegando já a ser mais de 200 pessoas, que protestavam e proferiam ruidosas palavras contra o novo regime português. Perante esta confusão, os presos acabaram por se evadir.
Segundo o jornal ‘O Mundo’, de 3 de Julho de 1912, “Os duzentos arruaceiros, assim dispostos, desceram á vila pelas onze horas e meia da noite, em grande alarido, soltando toda a sorte de vivório e morrório contrários ás instituições republicanas”.

Os revoltosos traziam várias armas com eles. Segundo o jornal acima referido, os “Pobres diabos, para quem a posse de meio escudo representa a sorte grande, apareceram munidos de pistolas Browing, que se vendem a doze e quinze mil réis”.
No meio de toda esta confusão, provocada pelos talassas (1) de Barcelos, vários elementos policiais foram comparecendo, por solicitação do administrador do concelho, verificando-se nessa madrugada de domingo uma autêntica batalha campal, cujo cenário foi o Campo da República.

Entretanto, os oficiais ali presentes, depois de dispararem várias vezes contra a multidão, causando vários feridos, ainda conseguiram efectuar várias prisões, destacando-se a prisão de Júlio Rainha (O ‘Clara’); José Rodrigues (‘O Pisca’); António Martins (‘O Galo’); José Faria (‘O Esfola’) e Izidro Cardoso (‘O Cabreiro’). No domingo de manhã foram ainda presas mais pessoas, destacando-se Fernando Durães, Luís Silva (‘O Jejum’) e ‘Os Pistolas’. Uma vez que o estabelecimento prisional de Barcelos não tinha condições para os albergar, todos estes presos seguiram para a cadeia de Braga.

Estes acontecimentos que ocorreram em Barcelos foram noticiados na imprensa regional e nacional. Por exemplo, o jornal ‘O Mundo’, na sua edição de 2 de Julho de 1912, trazia em quase metade da sua primeira página, o título “Em Barcelos - o que foi a tentativa de restauração da monarchia naquela vila - Pedradas, tiros e numerosas prisões”.

Nos primeiros anos da República, a revolta contra este novo regime foram constantes, destacando-se as ocorridas em Guimarães, Celorico de Basto, Cabeceiras de Basto ou Vieira do Minho. Em Braga, uma semana após estes acontecimentos de Barcelos, também se verificaram vários tumultos, notando-se, mais uma vez, um enorme movimento de militares, que tentavam impor a ordem pública e proteger os principais edifícios públicos existentes.

1) Talassas - defensores da Monarquia.

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