Correio do Minho

Braga,

Os refugiados sírios - e nós

A vida não é um cliché

Ideias

2015-09-25 às 06h00

Margarida Proença

As imagens correm mundo, e ferem a nossa sensibilidade. Não temos, muitas vezes, a noção exata do que se trata - há, hoje, 3,8 milhões de sírios refugiados, o maior êxodo desde o genocídio no Ruanda em 1994, de acordo com dados das Nações Unidas. O crescimento tem sido quase explosivo, desde 2012. Desde 2012, foram procurando refúgio em alguns dos países envolventes - na Turquia estão já mais de 1 milhão e novecentos mil. No Líbano, uma em cada cinco pessoas é um refugiado sírio; a Jordânia recebeu mais de meio milhão, países com infraestruturas e recursos limitados. Centenas de milhares de refugiados foram para o Irão e no Egipto. Para além de todos estes, dentro da Síria, 7,6 milhões de pessoas foram obrigadas a deslocar-se, fugindo da guerra, perdendo por essa via aquilo de que é feito o dia-a-dia de cada um.
Os números impressionam. Mais de metade de todos os refugiados sírios são crianças ou jovens com menos de 18 anos. Quase dois milhões de crianças. Mais de cento e cinquenta mil mortos.
Custa a entender o porquê . Um desses vídeos que agora circulam pela net, produzido pelo Le Monde, remete para três explicações fundamentais - a guerra civil, a guerra fria e guerra santa, para concluir que nenhuma solução está á vista.
O nosso olhar para o outro, simplifica sempre a análise, procura pontos convergentes com a nossa experiência. Os muçulmanos não são uma unidade homogénea; 84% são sunitas e 16% são xiitas, e opõem-se fortemente entre si, com raízes históricas que remetem para o século VII, para questões sucessórias na sequência da morte do profeta Maomé. O Irão é maioritariamente xiita (93,6%), tal como o Azerbeijão (85%) ou o Iraque (66,92%). Os xiitas têm igualmente uma importância relativamente significativa no Líbano, no Iémen ou no Kuwait. A Síria, tal como a Arábia Saudita, são maioritariamente sunitas, com percentagens superiores a 85%. No entanto, por razões que têm a ver com a história da Síria, o poder político tem sido detido por uma das seitas xiitas.
O atual presidente, Bashar al-Assad, é um médico, xiita, com formação especializada em oftalmologia obtida em Inglaterra. A chamada “primavera árabe”, que em 2011 perpassou por uma série de países, com o incentivo das grandes potências ocidentais, apoiou uma força política na oposição a Bashar al-Assad, a Coligação Nacional Síria; os protestos iam no sentido de reformas políticas tendentes a maior democratização e reforço dos direitos civis . Mas o apoio foi diplomático, e os Estados Unidos nunca foram favoráveis a uma intervenção militar. O que certamente não se esperava, dada a formação académica e um caracter reformador que se pretendia - na Europa e nos EUA - que o presidente sírio tinha , era a fortíssima reação militar que este teve. Bashar al-Assad iniciou uma guerra civil sem quartel, envolvendo os piores atentados, que justificaram que as Nações Unidas o tivessem já implicado em crimes de guerra e em crimes contra a humanidade, como o ataque a Damasco em 2013, recorrendo a armas químicas.
A resistência a uma intervenção militar por parte das potências ocidentais tem a ver com a posição geoestratégica e as alianças históricas da Síria - a Rússia mas também a China . A Síria é um cliente antigo da indústria de armamento russo, e continua a fornecer o exército leal ao presidente. Trata-se obviamente de contrabalançar o peso da Nato na região, e Putin tem o apoio pelo menos implícito da China. A situação é pois muito mais complexa e perigosa do que se poderá pensar , transformada potencialmente num palco onde se joga “o Este contra o Oeste”.
Todos nos perguntamos porque não há refugiados na Arábia saudita, o mais importante e rico país na região. A questão remete novamente para as questões religiosas - xiitas no poder na Síria, apoiados pelo Irão, de onde recebem dinheiro e armas, contra os sunitas na Arábia Saudita e noutras monarquias como no Qatar ou no Kuweit. Estes países vêem o apoio dado aos rebeldes sírios como uma forma indireta de diminuir a importância relativa do Irão, e nesse processo outros países como a Turquia têm tido também um papel relevante . E nesse quadro, grupos militares inicialmente de menor importância, tornaram-se cada vez mais presentes, aterrorizando e destruindo tudo e todos, como é o caso da Autoridade Islâmica. A instrumentalização internacionalização está presente em diversos níveis e contextos, desde o económico ao religioso, do local e religioso ao internacional, uma espécie de quadratura do círculo para a qual ninguém antevê, ou quer verdadeiramente, propor uma solução. E no processo, mais de 200.000 presos políticos, milhões de pessoas mortas e sem casa ou futuro, num conflito sem fim á vista.
Cada um de nós poderia ter nascido na Síria. Não fugiríamos?
A União Europeia foi criada no respaldo de um conflito tremendo, deste género, que matou e obrigou também a uma deslocação impressiva de pessoas. Foi um sonho, “não mais guerras”, que na realidade contribui de forma decisiva para décadas e décadas de crescimento económico e bem-estar, de democracia e pluralidade, de liberdade e direitos humanos, de educação e segurança social, de desenvolvimento económico e riqueza, reconhecidas por todo o mundo. Esse é o nosso chão. É essa a Europa a que eu quero continuar a pertencer.



Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.